Proximidade de Mário de Sá-Carneiro

Apesar de não se ter deixado influenciar pela estética modernista proposta por Fernando Pessoa e pelo restante grupo do «Orpheu», o ideário e a temática da obra de Florbela Espanca contém uma curiosa proximidade com a escrita de Mário de Sá-Carneiro, um desses membros do inovador grupo do «Orpheu».

Em primeiro lugar, há uma proximidade ao nível dos dramas pessoais (que Sá-Carneiro revela em «Esfinge» e «Esfinge Gorda»), onde se evidencia a moderna problemática da dispersão, do desdobramento da personalidade, que Florbela partilha em alguns poemas. Além disso, Florbela insere na sua obra a complexa temática da alteridade, bem como a da relação entre o eu poético e os outros, aproximando-se muito do universo temático de Sá-Carneiro, o que se acentua com as referências à crise de identidade do sujeito e à estratégia de fingimento do poeta (enunciada por Fernando Pessoa). Tanto um como o outro, procuravam uma identidade profunda.

Por outro lado, os dois autores têm em comum uma poética de excessos, de estados de espírito extremos, que oscila constantemente entre o desejo de amor e de morte (que encaram de modo semelhante), momentos de loucura e lucidez, luxo e sombras, plenitude e incompletude. Ambos vagueiam, em versos, por claustros, sombras e cenários decadentistas, oscilando entre a realidade e um mundo indefinido.

Como Sá-Carneiro, Florbela quis aliar a vida e a arte, a realidade e o sonho, mostrando-se o resultado desastroso para ambos. Aliás, há que sublinhar que ambos morreram jovens e pelo mesmo motivo: suicídio.

No aspecto estilístico, a sua proximidade é traduzida pelas recorrentes sinestesias (figuras estilísticas que misturam sensações diferentes) e por um cromatismo marcado pelos roxos, os lilases e o ouro.

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