A morte

Desde há muito que a angústia da morte, e da consequente ruptura com o mundo envolvente, se manifesta na literatura e nas restantes formas de arte, muitas vezes se lhe chamando melancolia.

Também Florbela possui um temperamento melancólico, talvez decorrente da consciência da sua própria singularidade, e uma estranha tendência para falar de tudo aquilo que a rodeia como de algo triste. Assim, pouco a pouco, Florbela vai concebendo uma espécie de intimidade entre a vida e a morte, que desde a sua infância aborda na poesia que escreve. (Não deixa de ser curioso e, porventura, sintomático, que a sua primeira composição poética, «A Vida e a Morte», escrita aos oito anos de idade, aluda directamente a esta temática). Do princípio ao fim, o pendor nocturno e acentuadamente fúnebre inscreve-se nos seus versos e na sua prosa.

Ao longo da vida, Florbela parece desejar, em vários momentos, a morte, apelando à sua vinda; mas é, sobretudo, depois do desaparecimento do irmão Apeles que Florbela mais insiste na temática da morte, ora repelindo-a com horror, ora querendo-a quase com uma intensidade e volúpia funestas, parecendo a morte sinónimo de única felicidade, como no soneto «Deixai Entrar a Morte». Em Florbela, a morte aparece não só como uma negação, mas também como um complemento da vida e até mesmo do amor. No fundo, a sua concepção de vida é esta: a vida, pesada e insuportável, não passa de uma antecâmara da morte. Talvez daí derive a sua escolha: achando-se livre perante a vida e a morte, decide fazer desta última uma escolha pessoal, acabando por suicidar-se, quase que obedecendo a um ritual de despedida.

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