Nunca Mais!

 

Ó castos sonhos meus! Ó mágicas visões!

Quimeras cor de sol de fúlgidos lampejos!

Dolentes devaneios! Cetíneas ilusões!

Bocas que foram minhas florescendo beijos!

 

Vinde beijar-me a fronte ao menos um instante,

Que eu sinta esse calor, esse perfume terno;

Vivo a chorar à porta aonde outrora o Dante

Deixou toda a esp'rança ao penetrar o inferno!

 

Vinde sorri-me ainda! Hei-de morrer contente

Cantando uma canção alegre, doidamente,

À luz desse sorriso, ó fugitivos ais!

 

Vinde beijar-me a boca ungir-me de saudade

Ó sonhos cor de sol da minha mocidade!

Cala-te lá destino!… «Ó Nunca, nunca mais!…»

 

8-7-1916

 

(Florbela Espanca, «Trocando Olhares, in «Poesia Completa»)

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