A poesia para Florbela
Entre tantos poemas a que deu vida, que significado tinha a poesia para Florbela?
Através da magia da poesia, Florbela cria um mundo só seu, através do qual se tenta proteger do mundo exterior, e das mudanças da vida, que encara com dificuldade. Além disso, é através dos versos que Florbela tenta domar os seus impulsos e as suas exigências. A poesia que escreve destina-se ao que há de mais profundo na própria poetisa, e nela Florbela revê-se totalmente; talvez por isso, consome-lhe muita energia, o que faz com que tudo o resto seja colocado em segundo plano. A poesia foi a constante companhia de uma mulher que se sabia amada, mas ( ) incompreendida (Zuleide Duarte, «Florbela Espanca: A Flor - Paixão», in, «Estudos Sobre Florbela Espanca»).
Por outro lado, os seus versos eram a sua mais poderosa arma de sedução: tinham uma certa magia de que ela tinha consciência e usava-os para cortejar o seu amado.
De uma maneira geral, a poesia é o retrato das suas vivências: a dor, os desamores, a angústia, as faltas e exageros, a procura e desencontro permanentes, os sonhos que não alcançou, a vida que não viveu. É o percurso da «Castelã». A poesia surge, assim, como celebração suprema dos desencontros e desenganos que a vida lhe deu a conhecer. Era pela poesia que procurava a tranquilidade, que não alcançava, ficando a escrita como libertação temporária.
No plano pessoal, Florbela sente a sua qualidade de poetisa como um acidente, que dificulta as suas relações sociais. Reconhece ao poeta um destino desventuroso, uma missão que é trágica, como se de uma vocação quase maldita se tratasse, implicando uma singularidade que só os próprios poetas poderiam compreender e que condensou, genialmente, em «Ser Poeta». É por isso que, para Agustina Bessa Luís, Florbela vivia a poesia como uma doença (Agustina Bessa Luís, «A Vida e a Obra de Florbela Espanca»). Paralelamente, Florbela sente que o poeta finge, sendo um ser solitário que fala da sua dor e a transpõe para o infinito. Ao mesmo tempo, o poeta pode ser visionário, e até profeta, em defesa da pátria.
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