A rejeição da sociedade

As atitudes e a obra de Florbela nunca, ou muito raramente, mereceram a simpatia dos seus contemporâneos. O erotismo sem precedentes inerente à sua obra e, acima de tudo, o facto de ter assumido frontalmente dois divórcios e três casamentos, chocaram uma sociedade mesquinha, invejosa e intriguista, que não reconhecia qualquer autonomia à mulher. Daí terem acusado a poetisa de mulher sedutora e tentadora; provavelmente, a sua figura esbelta e a roupa moderna, bem como o seu carácter firme e determinado, causaram inveja à sociedade da época, que a considerou um escândalo público, uma mulher adúltera, indigna, e sem escrúpulos, cuja conduta moral foi alvo de dúvidas e críticas. Essa situação agravou-se substancialmente com o facto de ser, oficialmente, filha ilegítima de pai desconhecido e por causa das demais circunstâncias, invulgares para o tempo, que rodearam o seu nascimento. Na opinião de Maria Alexandrina, Florbela foi rainha de uma triste corte onde abundaram as intrigas, as invejas (Maria Alexandrina, «A Vida Ignorada de Florbela Espanca»).

Para Florbela, a rejeição da sociedade contribuiu significativamente para aumentar o seu sofrimento; sentia-se vítima de uma injustiça que não merecia, apenas por se tentar libertar da condição secundária que, na época, limitava o papel das mulheres. Segundo Rui Guedes, um dos seus biógrafos, Florbela ressentia-se bastante das calúnias que lhe dirigiam, falando, por isso de gritos de revolta e de afinado desconcerto (Rui Guedes, «Acerca de Florbela»); talvez daí tenha derivado a sua tendência evasiva e uma progressivo isolamento.

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