A singularidade

Como mulher, Florbela levou uma existência muito singular: foi uma mulher nascida antes de tempo, pois a sua condição feminina impediu-a de levar a vida que desejava e de ter o reconhecimento que merecia. Assim, não lhe restou outra alternativa, senão ser uma verdadeira lutadora e uma revolucionária para a época. Lutou para fazer tudo: para estudar, para se casar, para se divorciar, para conseguir ver os seus livros publicados, para se afirmar na sociedade, para ser compreendida tal como era, mas isto não conseguiu. Sofreu decepções na família, com o pai, na sociedade e na literatura.

Tinha a clara consciência de ser alguém, independentemente da sua função na família ou no casamento. O seu perfil era, por isso, marcado pelo orgulho, mas também pela verticalidade, nunca traindo os seus princípios. Por outro lado, tinha clara consciência de ser diferente das outras mulheres do seu tempo, queria mais da vida, como ela própria escreve e Rui Ramos aponta. Dona de uma personalidade forte e de uma sensibilidade rara, tinha, em contrapartida, uma força de vontade que declinou ao longo da vida. Corajosa, detestava a hipocrisia e a mentira, tendo, perante a vida, uma postura de desassombro. O seu espírito estava permanentemente ansioso por novidades.

Foi, sem dúvida, uma mulher com fúria de viver, mas viveu uma vida feita de contradições, como contraditória era a sua própria personalidade, e marcada pelo infortúnio. Para Agustina Bessa Luís, o seu infortúnio foi ter talento e preguiça para o exercer. No entanto, é quando se adapta a esse destino agressivo e louco que dá asas à sua originalidade (Agustina Bessa Luís, «A Vida e a Obra de Florbela Espanca»). Foi infeliz com razões para a felicidade (Agustina Bessa Luís, prefácio a «As Máscaras do Destino»).

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