Cobra

(Ed. & etc., Lisboa/1977)

Para melhor compreender esta obra de Herberto Helder, torna-se importante referir a carta que o poeta escreveu a Eduardo do Prado Coelho, publicada no primeiro número da revista Abril (Fevereiro de 1978), aprofundando os aspectos que são cruciais para a sua compreensão: a existência de versões diferentes de Cobra, sendo que os exemplares distríbuidos pelo autor são todos diferentes entre si e diferentes da «versão original»; a classificação da obra como algo que «flutua», «em suspensão»; e, por último, a questão de saber o que é «citável» de um autor. Na sua carta, Herberto Helder considera importante e até «excitante», a circunstância de um livro não se cristalizar, não ser definitivo: «As versões têm variado de destinatário para destinatário, porque o livro, em si mesmo, digamos, flutua. É um livro em suspensão. Não é excitante que um livro não se cristalize, não seja «definitivo»?» (Herberto Helder, Abril, nº 1, Fev.78). A suspensão, a não-cristalização do texto, taduz-se pelo facto, inédito até este momento, de não existir um só livro chamado Cobra porque existem dezenas de outros exemplares, tornando-se assim manifestação extrema da insatisfação provocada pela exigência de uma criação original. Esta multiplicidade de versões serve para dessacralizar o texto, para o reduzir a uma condição perecível, mortal, para deixar de o considerar como transcendente. Para o poeta só o príncipio ou fim absolutos podem ser definitivos.

Partindo deste facto, é igualmente pertinente o questionamento sobre o que é «citável» de um livro ou autor. Este problema coloca-se fundamentalmente ao nível da crítica literária que, ao procurar uma maior clarificação da ambiguidade poética do texto, recorre frequentemente a citações, de forma a evidenciar a existência de linhas que expliquem o sentido global do texto, constituindo-se, desta maneira, como uma leitura única. Porém, Herberto Helder afirma radicalmente que só o silêncio ou a morte de um autor podem ser citáveis, uma vez que só eles correspondem ao verdadeiro desvendamento do seu estilo. Deste modo, as citações feitas têm de apresentar-se não como uma apreensão total de uma verdade, mas sim como uma mera aproximação, ganhando uma nova legitimidade, deixando ao autor um espaço de liberdade e banindo assim qualquer conceito de leitura definitiva.

Uma das principais linhas da obra, refere-se à «movimentação errática», que se traduz como um exercício poético em Herberto Helder, e que o faz flutuar entre a procura de um «centro» e o reconhecimento do carácter «descentrado» da sua obra. O título da obra contém igualmente uma intensa significação simbólica de mudança, transformação e metamorfose, inerentes ao estatuto zoológico do réptil que dá nome à obra, bem como o seu carácter sinuoso, fugidio, inapreensível e ambíguo. Mas, este simbolismo não se prende só nestes factores, liga-se também à dimensão cósmica, ao erotismo e às significações que o psicólogo suiço Jung dá à utilização do simbolismo da serpente. Este psicólogo via na serpente um símbolo da angústia que exprime um ressurgimento das atitudes potencialmente destrutivas que se encontram no nosso inconsciente. A escrita de Herberto Helder encontra-se assim presa numa intensa dicotomia, tentando um exercício de montagem, de criação da ordem, do significado, a instauração de um centro, de uma unidade cósmica, contribuindo para a libertação da angústia, e por outro lado, tentando um implacável exercício de destruição, lançando-se numa tensão entre o centrado e o descentrado, entre o cosmos e o caos, o que se traduz numa impossibilidade em encontrar um ponto fixo, um lugar onde o ser e o estar coincidam. Devido ao facto do os poemas em Cobra se apresentarem como «rotativos», ligados por um intenso simbolismo, qualquer leitura que se faça deste livro, será, inevitavelmente, fragmentária.

Esta obra é composta por vários textos diferentes, agrupados em cinco partes: «Memória, Montagem», «Exemplo», «Cobra», «Colófon» e «Outros Exemplos». A primeira parte, considerada como uma introdução, é constituída por um texto em prosa no qual a linguagem poética define a essência básica da poesia e estabelece considerações sobre o poema, sendo que o poeta se abstém de fazer distinções tradicionais, alargando assim a concepção do poema a objectos artísticos. Deste modo, o poema é apresentado como um quadro ou sequência de quadros, constituindo uma espécie de filme. «Exemplo», a segunda parte desta obra, é um texto curto no qual a pontuação é substituída por estruturas rítmicas, sendo que este texto surge na sequência da exposição sobre o poema fílmico e inspira-se no cinema animado de ficção científica, deixando-se o poeta fascinar por tudo quanto remete para a mais recente descoberta ou invenção da ciência e da técnica da era espacial. Este texto narra uma pequena história que exemplifica o problema da destruição e da subsequente reconstrução, formando um poema bem articulado nas suas partes.

«Cobra», a terceira parte deste livro, sem dúvida a mais importante, é o fulcro do livro, uma vez que lhe dá o nome e se constitui como um dos mais densos e belos poemas dentro da obra do autor. Apresenta-se como um momento de grande poesia, de uma excepcional beleza, grandiosidade e vertigem emocional. A quarta parte, «Colófon», apresenta-se como um poema-frase, no qual a pontuação é substituída pelo travessão e as pausas lógicas indicam a cadência rítmica da leitura. Aqui, o poeta explora o poder evocador do centro e da dimensão de profundidade, pelo que a reflexão sobre a escrita poética se afunda na realidade até atingir o imaginário e faz entender que a palavra poética é o mais completo silêncio. Por último temos «Outros Exemplos», que se apresenta como uma contra-escrira destinada a destruir o poema fundado na regularidade gramática, sendo que nenhum texto do poeta, por mais subversivo que seja, é inteiramente destruído, isto é, nunca deixa de ser um texto literário. Podemos ainda afirmar que todas estas partes se interligam, dialogam entre si, completam-se, complementam-se, destroem-se e recriam-se. Todos os poemas evidenciam a energia e a intensidade como elementos específicos poéticos que assinalam a coesão entre os diversos textos.

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