Herberto Helder: a luta da obra contra a vida

Qualquer poesia que «não é feita de sentimentos e pensamentos, mas de energia e do sentido dos seus ritmos» (Herberto Helder, in Photomaton e Vox) só pode falar um idioma que não descende do código que assegura a comunicação e a sua capacidade para converter todas as formas em intensidade, que não pode ser nomeada por nenhuma outra linguagem, não pode ser redutível ao prazer estético nem tornar-se auxiliar da cultura. Uma obra que se insere dentro destes contornos afirma a soberania absoluta da palavra poética, sendo que o poeta que a criou se encontra, de certo modo, injustificado em relação a ela. Assim se justifica que a constante atitude de retirada de Herberto Helder seja um gesto coerente que não se faz contra nada nem contra ninguém, sendo por isso a afirmação radical de uma experiência pessoal que só responde a si própria.

Ao evitar todos os cerimoniais públicos que exigem a sua presença na sua identidade civil e como imagem na qual as instituições sociais podem representar a sua generosidade mecenática, Herberto Helder não recusa nada nem lança ofensivas de guerra, existindo nele apenas a vontade de reduzir a poesia, que considera como a sua arte, ao que lhe é essencial, fazendo ver que tudo o que lhe é exterior se constitui como um ruído, um obstáculo que a desvia do seu lugar próprio e nos impede de aceder à pureza obscura da sua poesia.

Em 1994, o Prémio Pessoa, patrocinado pelo jornal Expresso e pela empresa Unisys, foi atribuído a Herberto Helder, mas este, apesar de todas as espectativas do mundo literário português, recusou aceitar este prémio no valor de sete mil contos, causando assim o espanto de muitos e o louvor de alguns.

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