Instabilidade biográfica

Após uma leitura atenta da biografia de Herberto Helder, pode constatar-se que se trata de uma pessoa com um percurso pessoal instável, isto porque o facto de o poeta levar uma vida assumidamente marginal nos leva a deduzir que esse tipo de vida tem reflexos na sua obra poética. Podemos procurar nos textos vestigíos dos seus dados biográficos, mas só podemos encontrá-los para reconhecer a anterioridade da sua poética em relação à sua biografia, sendo esta uma forma de memória que assume a imemorialidade e em que a escrita se afasta do mundo. Assim, a sua poesia remete sempre para um tempo sem datas e para uma topografia não localizável, obrigando-nos, de maneira radical, a esquecer a longa história de rivalidades e conivências, de aproximações e diferenças entre as palavras e o mundo real, ocultando todas as formas de identificação entre a linguagem e a vida. A expressão máxima destes factos surge com uma declaração feita pelo próprio Herberto Helder: «Tenho de inventar a minha vida verdadeira» (in Expresso, 17 de Dezembro de 1994, p. 10).

Na sua vida podem identificar-se claramente sensações de «falta de território», de «exílio», de «prisão», de descentramento e de mal-estar, sensações estas que derivam da sua vontade de romper o pacto com a ideologia vigente da época, sendo esta a postura característica do acto heróico do poeta moderno, que o incita a fundar uma linguagem contra os códigos consagrados da cultura dominante e a adoptar uma conduta afastada do real.

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