Os Passos em Volta

(3ª ed./Edit. Estampa, Lisboa / 1970)

Herberto Helder deve grande parte da sua notoriedade a esta obra, que se configura como um livro de contos onde a fantasia do poeta se disciplina por um mínimo de enredo e de referências claramente objectivas, o que o reporta a um transcendentalismo que possui ainda algo de romântico. Mas, mais do que um livro de contos onde Herberto Helder reuniu textos de uma excepcional qualidade poética, Os Passos em Volta é uma deambulação particular por diversas vertigens, que prenuncia o volume de autobiografia romanceada Apresentação do Rosto (1968). Ambas estas obras se inscrevem num tipo de literatura pouco praticada entre nós, uma literatura de «diagnóstico psicótico», em que a auto-interpretação deriva directamente da interpretação dos sonhos. A literatura tem assim como objectivo, ajustar as experiências do narrador ao ângulo de recepção do leitor.

Os Passos em Volta representam os passos de um homem que lucidamente tenta descobrir o sentido da sua existência, e que não conseguindo obter nenhuma resposta a partir do transcendente, tenta traduzi-lo para a matéria do presente. Deste modo, o único sentido para a vida será o poema-corpo, donde parte e onde regressa o viajante que, das coisas que viu, traz uma «sabedoria vil, esmagadora». É considerando o corpo como sagrado e milagroso que o percurso da idade assume um carácter redentor, sendo que assim o viajante atinge o Reino da Utopia: um «lugar de sol» no país da linguagem.

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