Surrealismo

O surrealismo português caracteriza-se, essencialmente, pela sua efemeridade e instabilidade, tendo estado assim condenado a dissidências, debates e escândalos. O surrealismo de «segunda vanguarda» estava votado, tal como o grupo de "Orpheu", a inquietações, ao desvio às maneiras recomendadas pela crítica e ao gesto irreverente da escrita. Este surrealismo teve uma curta carreira como grupo, entre 1947 e 1950, embora tenha despertado um movimento que mobilizou toda a poesia contemporânea. Para além da sua brevidade, o surrealismo português teve também uma história fortuita, uma vez que se opunha à atmosfera opressiva do Estado fascista que vigorava na época, sendo que a sua única consequência benéfica na poesia foi a introdução da «escrita automática», que demonstrou ser o motor que impulsionador da linguagem. Este movimento, que aliava poetas, críticos, pintores e desenhistas, dedicou-se sobretudo a edições colectivas e a antologias que procuraram recuperar o passado literário dos seus antepassados.

O surrealismo em Portugal foi, de algum modo, influenciado pelo surrealismo françês, representado principalmente pela escola de André Breton, dada a grandes antologias e a retrospecções históricas e que ajudou a evidenciar as primeiras formas de surrealismo na obra de Fernando Pessoa. Esta comparação com o surrealismo françês confere ao movimento português um grande atraso, que não permite uma originalidade total, mas que proporciona uma amálgama entre um movimento de abjecção humana, valorizada pela psicanálise, e o existencialismo. A esta amálgama deu-se o nome de Abjeccionismo. O surrealismo português é assim pobre em comparações com os modelos franceses, bem como em relação a certos percursores portugueses, tais como, Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Vitorino Nemésio.

O surrealismo libertou a imaginação para uma busca sem fronteiras e conseguiu o equilíbrio entre o que as palavras geram e a disponibilidade para a leitura. Esta corrente configura-se assim como uma corrente oposta ao neo-realismo, tendo-se traduzido principalmente num fenómeno editorial caracterizado pelo aparecimento de pequenas brochuras, ou melhor, revistas de poesia e crítica que se desenvolveram em séries não periódicas, a fim de iludir a censura, e que contavam com a participação de um grupo de autores que se apresentava como bastante instável. Estas revistas começaram a surgir a partir da década de 50, dando fundamento à «segunda vanguarda» do movimento surrealista, sendo as mais importantes: Momento (1950), Távola Redonda (1950-1954), Árvore (1951-1953), Sísifo (1952), Cassiopeia (1955), Búzio (1956), Graal (1956-1957), Folhas de Poesia (1957-1959), Notícias do Bloqueio (1957-1962), Pan (1958), Coordenada (1958-1959), Cadernos do Meio-Dia (1958-1960), Pirâmide (1959-1960), Hidra (1966). Ao colaborar com algumas destas revistas, Herberto Helder embrenhou-se num surrealismo que veio a diluir-se na intensidade de um impressionante personalismo lírico.

Em 1961 é publicada a Antologia Surrealista do Cadáver Esquisito, com a organização de Mário Cesariny e a colaboração, ainda que ocasional, de Herberto Helder, mostrando que este não é um nome estranho ao movimento surrealista. Porém, podemos dizer que o surrealismo português correu sempre o risco de transformar a arbitrariedade das imagens numa imaginação excedente ou transformar o «funcionamento real do pensamento» em prolixidade, sendo sugerido por vários autores, entre os quais João Gaspar Simões, que na poesia de Mário Cesariny ou Alexandre O'Neill existia mais lirismo do que surrealismo. No final da década de 50 esta situação particular era frequentemente considerada como um mal-entendido, tendo posteriormente atingido o seu período máximo de crise quando surgiram duas novas propostas de linguagem decorrentes da publicação de Poesia 61, feita por um grupo de poetas que procuravam um maior rigor e contenção expressivos, dando assim início às primeiras tentativas de uma poesia concreta ou experimental.

Enquanto isso, também o surrealismo não deixou de ir ao encontro de uma exploração da linguagem que serviu igualmente para abrir caminho em direcção a uma poesia experimental, sendo que, Herberto Helder, ao situar-se bem no centro desta encruzilhada, soube sempre equilibrar, de forma espantosa, a «fantasia minuciosa», o «poder da loucura» com uma autêntica sabedoria da linguagem. Assim, podemos aproximar Herberto Helder de um conjunto de poetas que nasceram entre 1928 e 1934, tais como: Fernando Echevarría, Jorge de Amorim, Pedro Tamen, Cristovam Pavia, Maria Alberta Menéres, João Rui de Sousa, Ernesto de Melo e Castro, Ruy Belo, entre outros, sendo que estes poetas se debruçavam sobre a realidade da poesia e da linguagem. Inserido neste movimento, a principal característica da obra de Herberto Helder, situada em paralelo com a de António Gedeão e Natália Correia, é uma tentativa de equilíbrio entre a contenção (a procura da palavra e a exigente selecção de imagens) e a abertura para uma possibilidade de desenvolvimento e derivação discursiva do poema, trazendo a capacidade de reabilitar a imaginação e de se libertar de uma estrutura sintáctica tradicional, comprometida pelos muitos anos de poesia descritiva e narrativa.

Em toda a poesia de Herberto Helder temos a ilusão de que as palavras se solidificam num conjunto de designações, na chave com que julgamos ser capazes de abrir o seu enigma. Este aspecto insere-se na tendência geral do surrealismo em criar múltiplos labirintos que recusam uma significação que aprisione o poema, sendo que Raverdy aconselhava a que a criação imagética da poesia proviesse do aproximar de duas realidades mais ou menos afastadas. Porém, este afastamento era a simples procura do imprevisto, o apego ao poder dos contrários, e não o signo da diferença que cada palavra realiza em relação ao equilíbrio do poema. Deste modo, podemos concluir que a obra de Herberto Helder, através da sua aproximação com o surrealismo, foi capaz de acompanhar e cumprir uma verdadeira modernidade, uma vez que esteve sempre atenta à violência da linguagem e à sua disponibilidade, à palavra e ao seu acto, e daí soube partir à descoberta de novos caminhos, tomando um papel próprio da grande poesia.

[ CITI ]