A tradição do ilegível

A análise do espaço literário português, que se situa entre o aparecimento do grupo de Orpheu, em 1915, e as manifestações poéticas das últimas décadas, é feita principalmente através da dicotomia entre legibilidade e ilegibilidade. Esta dicotomia surge porque a modernidade afecta as relações entre o poeta e o leitor, modificando-se a experiência de leitura.

No campo do legível o texto permanece dentro dos limites habituais de leitura, cujos suportes foram erigidos por uma tradição literária que se deixou consumir e na qual a linguagem se apresenta como mediadora do real, na tentativa de transpôr para o leitor as preocupações, observações, pensamentos e emoções do autor. Por outro lado, o campo do ilegível decorre das teorias objectivas da poesia que agregam diferentes doutrinas. Este campo concebe a poesia como independente do real, autónoma em si mesma, fundadora das suas próprias leis de relacionamento interno que provocam alterações semânticas dos signos manipulados. O poema encontra-se separado das causas externas e das finalidades posteriores, não pretende comunicar nem mediar e visa apenas mostrar todo o universo ainda não maculado pelas relações desumanizadas que o oprimem.

Na poesia portuguesa, esta prática do ilegível foi recuperada ao longo da década de 50, tendo sido posteriormente reforçada e impulsionada pela intervenção surrealista e, finalmente, inserida no experimentalismo. O primeiro passo decisivo da ilegibilidade na poética portuguesa foi, sem dúvida, marcado pelo procedimento poético do grupo de Orpheu e, principalmente, por Fernando Pessoa, através do sensacionismo, do paulismo e do interseccionismo. A poética de Herberto Helder insere-se no movimento denominado de «segunda vanguarda», que surgiu no seguimento da obra de Fernando Pessoa, autor que construiu a ponte que liga a modernidade à Literatura portuguesa. Podemos encontrar traços bem fortes de ilegibilidade em Pessoa, uma vez que este poeta constrói, através dos seus poemas, uma densa barreira entre si e o leitor. Daqui podemos constatar que a modernidade de Herberto Helder se liga à de Fernando Pessoa, sendo que a poesia ilegível na obra poética de Herberto Helder é rica e complexa, desafiando a crítica com o seu encanto pessoal, a sua escrita arrebatadora e o seu apelo marginal.

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