Universo poético de Herberto Helder

Sendo Herberto Helder um dos maiores poetas europeus contemporâneos, a força motriz da sua obra reside na inquietude da vigilância, na vontade de revisitação e de questionamento incessante do seu acto poético. A sua poesia caracteriza-se por ser viva e irrequieta, transbordando os limites daquilo que enuncia, extravasando-se para além do seu contexto histórico-social e inaugurando novas zonas de exploração que lhe concedem a designação de «poética de vanguarda».

Na poesia de Herberto Helder podemos distinguir três fases: a primeira é a da «ironia mansa», onde se pode observar um desajuste entre expressão e problema, desajuste esse que ajuda a desaprender para posteriormente se aprender uma outra coisa. Esta é uma fase de confusão, onde o surrealismo e o anarquismo se entrelaçam; a segunda é a correspondente à sua obra Electronicolírica, sendo que nesta fase se observa a combinação de um número limitado de expressões e palavras mestras, criando uma linguagem encantatória, ou seja, uma espécie de fórmula virtual mágica. Na segunda fase podemos encontrar uma forte identificação com William Blake e Nietzsche; por fim, surge a terceira fase, a dos «projectos da sensível inteligência do que nos vai acontecer», onde o poeta descobre os vários graus de liberdade da sua poética, sendo esta uma fase ligada ao signo da crença.

Os temas principais da obra de Herberto Helder, - vida, morte, erotismo, poesia, conhecimento e visão mágica do mundo, determinam, muito fortemente, o encanto sentido pela imaginação e sensibilidade do leitor. A tendência fundamental do poeta é para a identificação sistemática de quaisquer objectos, sendo assim impossível desenvolver os assuntos em compartimentos distintos e rígidos o que torna obrigatória uma inter relação. Herberto Helder utiliza também palavras quotidianas, como sal, camisa, entre outras, que ocupam uma presença familiar nos seus textos, estabelecendo as áreas lexicais privilegiadas pelo autor, fazendo do espaço verbal revelador do poder mágico desencadeado pelos objectos e determinando a imagem que o poeta tem de si e do lugar onde se movimenta. Pode também afirmar-se que a obra deste poeta reata e estabelece laços com a secreta verdade dos seres, através de uma linguagem obscura, a fim de exprimir o que de mais simples existe na sua existência. Os seus textos apresentam uma inspiração tumultuosa, de ordem carnavalesca, que dá origem à multiplicação dos sinais que o poeta deixa de si no poema.

Em relação ao tema do amor, podemos dizer que Herberto Helder não cai na tendência de narrar episódios sentimentais banais ou burgueses ou situações que acabem em desenlaces domésticos, o que faria do amor um simples estatuto. Na sua obra o amor é assumido enquanto acontecimento trágico, até mortal, associado muito frequentemente a tipos de violência. O amor, como relação sentimental entre pessoas só existe na obra de Herberto Helder enquanto metáfora, referindo-se a outra relação que, não sendo sentimental, é sempre erótica e vivida com paixão.

A poesia herbertiana aproxima-se, assim, das primitivas literaturas cosmogónicas e das modernas teorias cosmológicas, captando o mundo onde ele se recolhe e se subtrai, trabalhando contra o significado numa escrita cujo dom é a transmutação e desempenhando a tarefa inquieta de «pôr a vida na sua oculta loucura». Herberto Helder é o decifrador irreverente da matéria enigmática, o corruptor do real e da linguagem codificada, portanto, a sua poética apresenta uma grande sede do encoberto, passando do ilegível para o equívoco, para o erro, para o misticismo, no momento em que se alia ao esquecimento e faz a purificação alquímica da palavra, obtendo o vazio e o silêncio. Podemos concluir constatando que o trajecto da poética de Herberto Helder vai do mítico ao utópico, ao poema como partitura pura, desentranhando o «conhecimento informulado» que faz emergir a sua cosmogonia poética.

É bastante frequente afirmar-se que a obra de Herberto Helder é constituída por textos herméticos, uma vez que não se entende instantaneamente onde ele quer chegar, porém, facilmente se compreende esta poesia desde que o leitor consiga entrar no restrito circuito do pensamento do poeta. Basta, portanto, descobrir a visão do universo reflectida pelo plano da expressão poética para se entender imagem por imagem o que o poema representa. Pode considerar-se que os textos de Herberto Helder não se destinam a iniciados na poesia, uma vez que revelam uma densa complexificação poética, tornando-a obscura e enigmática, mas não hermética, pois o próprio poeta nos fornece as chaves dos seus enigmas, sendo só preciso procurá-las com bastante atenção.

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