O Cidadão Leonardo Coimbra
Aqui, nesta velha Brasileira do Rossio, em certa manhã de luz lavada dos dias posteriores à derrota dos monárquicos em Monsanto, vim encontrar Leonardo Coimbra a engraxar os sapatos, rodeado da sua corte habitual do Partido Democrático.
Acolheu-me com alegria de criança, tirada cá para fora pelo sol, criança ardente que não receou interromper o engraxador, nos últimos esmeros do brilho, para se pavonear diante de mim em exibição de elegância:
- Hã? Que tal?
Examinei-o e, ó Céus!, estava de fraque.
- Que é isto? Vai a algum casamento? - perguntei, feliz por encontrar logo o lugar-comum necessário.
E ele, radiante de vida provisória:
- Sou ministro!...Ministro da Instrução. Vou prestar juramento ao Presidente Canto e Castro.
E com a Ilhaneza franca de ministro de 1919, ali na Brasileira, com o sol a parecer mais sol:
- Pedi o fraque emprestado...
Todos, à uma, aplaudiram:
- Fica-lhe como uma luva...Como uma luva!
Leonardo mirou-se no largo espelho cívico da Brasileira (que bom haver copos, fraques e amigos!):
- Como uma luva.
E sentou-se de novo, a recomendar ao engraxador:
- Puxe-lhe bem esse lustro, cidadão!
- Qual é o seu programa?...- interroguei-o, tímido, quase com voz secreta.
E ele, desvanecido com o destino, tom levemente irónico de não acreditar que pudesse reprincipiar o mundo sem serpentes nas árvores:
- Acabar com a Universidade de Coimbra."
(in "Imitação dos Dias")
[ CITI ]