Entrevista com Raúl Hestnes Ferreira - por Sara Rodrigues

Herdeiro, com o seu irmão, dos direitos de autor de seu pai - o escritor José Gomes Ferreira - Raúl Hestnes Ferreira é hoje um arquitecto conceituado, com atelier no Largo da Graça, também em Lisboa. Foi lá que tive oportunidade de o encontrar, e de conversar um pouco sobre o que foi a vida e obra de seu pai, e também a sua vida, como filho desse grande escritor. Histórias reais, de pormenores curiosos e até com piada, que as biografias nunca revelaram...

- Tem-se criado, ao longo da história (e nomeadamente da história da literatura), o estereótipo (se assim se poderá chamar) do escritor como um homem solitário e individualista, até egocêntrico, com uma relação muito especial com o mundo e com todos os que o rodeiam. José Gomes Ferreira enquadrava-se neste modelo de escritor?

RHF - Muito pelo contrário, o meu pai até era um homem muito convivial. É claro que preservava muito o seu interior, a sua independência - e isso mesmo na literatura: o meu pai, como grande conhecedor da literatura que era, acabou por sofrer certas influências do Surrealismo, Neo-Realismo...Mas nunca se filiou em escola alguma. Também esteve afastado algum tempo, na Noruega, onde se encontrava quando se deu a implantação do Estado Novo, o que lhe deu um certo afastamento do País, também a nível literário - mas privilegiava também muito as amizades. Tinha grandes amigos, como Mário Dionísio, Carlos de Oliveira (que foi nosso vizinho em Entre-Campos), Pinheiro Torres (não morava cá, mas sempre que vinha a Lisboa encontrava-se com ele),... Ia todos os dias ao café, ao "Bocage", depois ao "Monte Carlo". Logo após a II Guerra Mundial lembro-me que frequentava o antigo café "Portugal", no Rossio, onde iam todos os políticos e escritores democráticos da altura. Não é que o meu pai fosse aquilo a que se pode chamar um "Homem social"...Muito pelo contrário, até não ia às festas sociais com muito bom grado. Mas os convites e solicitações eram muitos - sobretudo depois do 25 de Abril - para festas, comícios,...E o meu pai acabava por não faltar a nada.(...)Tinha uns hábitos muito especiais : acordava cedo, e gostava de trabalhar logo de manhã. Escrevia e elaborava o material que tinha recolhido - sim, porque o meu pai andava sempre com uns papelinhos pequenos no bolso, e ia tirando notas sobre o que via e ouvia...Coisas que lhe davam sugestões para escrever. A obra "Eléctrico" é um bom exemplo disso - até à hora do almoço. Depois do almoço ia até ao café, até às 4, 5 horas. Depois trabalhava no cinema Tivoli: escolhia filmes e fazia os anúncios...O meu pai trabalhou muito tempo também como tradutor de fitas, o que fazia mais para sustento da família, porque não era um trabalho que lhe agradasse muito...Ocupava-lhe muito tempo...Foi também assistente de Cotinelli Telmo na "Canção de Lisboa" e de Chianca de Garcia na "Aldeia da Roupa Branca". Perguntaram-lhe inclusivé se ele queria fazer filmes, mas ele recusou sempre. Não se achava com vocação para realizador. Mas todos estes trabalhos acabaram por pô-lo em contacto com uma série de gente desse meio. Outro amigo dele, por exemplo, era António Lopes Ribeiro, um homem de direita e um grande cineasta. E além da escrita - o meu pai começou a escrever desde muito cedo, embora tivesse renegado a sua primeira obra ("Lírios do Monte") que dizia ser má poesia, onde, por exemplo, colocava "abrolhos" para rimar com "olhos" - o meu pai também compôs música. A família do lado da minha avó, de Braga, estava muito ligada à música, assim como o meu avô, criando um meio que não deixou de influenciar o meu pai. E ele tinha muita vocação! Luis de Freitas Branco, por exemplo, foi um dos que o afirmou, e teve muita pena do meu pai ter abandonado a música. Mas a escrita era, de facto, o que agradava mais ao meu pai. No final da sua vida ainda fez também umas duas ou três obras de teatro, que foram criticadas pelos especialistas, mas que eu, por acaso - embora não seja esse o meu campo de intervenção - até aprecio muito.

- E em relação aos ideais políticos de José Gomes Ferreira : acha que a sua posição era uma posição politicamente bem definida, ou vê mais o seu pai como um homem sonhador, de ideais utópicos, com um forte desejo de transformar o Mundo?

RHF - O meu pai nasceu em 1900 (data que ele referia sempre com orgulho), num período conturbado da história : foi muito marcado pela implantação da República em 1910, e com 17 anos assiste à revolução de Outubro na Rússia...O meu avô era um homem muito culto e activo politicamente. Ficou órfão aos nove anos, mas cultivou-se sozinho. Embora trabalhando como marçano, de dia, passava as noites enfiado nas bibliotecas. E desenvolveu uma importante obra social em Lisboa: fundou a Universidade Livre, os Inválidos do Comércio, criou as Bibliotecas Municipais, promoveu a arborização de Lisboa com árvores de fruto...Levava miúdos a tomar banho em Algés...E depois no campo político: pertenceu à Maçonaria, foi vereador da Câmara Municipal de Lisboa, e nas últimas eleições para o Parlamento antes do Estado Novo, em 26, foi o político mais votado em Lisboa...O meu pai estava muito ligado a ele (também como filho mais velho dos três irmãos - era ele que organizava sempre as brincadeiras : brincavam às Ilhas e Repúblicas, por exemplo...Depois morreu o irmão do meio, e o mais pequeno tinha uma relativa diferença de idade do meu pai...) e é certo que foi influenciado pelo meu avô, se bem que nunca fosse um político, embora assumindo-se como um homem de esquerda. Era uma pessoa muito reflexiva e crítica, que tinha as suas opções políticas que transpareciam na sua produção literária. O meu pai aderiu ao Socialismo/Comunismo pelos seus ideais igualitários, mas era um homem muito aberto a todas as tendências. Foi também muito ligado ao PCP - Partido Comunista Português - , mas nunca dentro dele. Do grupo de intelectuais de esquerda com que ele tinha contactado, e muitos dos quais tinham pertencido e depois se tinham afastado do PC - Mário Dionísio, Carlos de Oliveira, João José Cochofel, o próprio Mário Soares - foi o único que acabou por aderir a ele já depois do 25 de Novembro, quando o Partido tinha perdido alguma hegemonia (logo, um acto de grande idealismo), eu diria que até mais por solidariedade do que por vocação partidária. Mas o meu pai acreditava, sobretudo, na Liberdade (escreveu inclusivé um livro "Ó tu, Liberdade"), valor que sempre colocou acima de todos os outros.

- Acha então que a sua educação foi um educação liberal? Nunca se sentiu coagido, ou pelo menos influenciado, pelos ideais do seu pai? Como foi, no fundo, J.G.Ferreira como pai?

RHF - O meu pai era extremamente liberal. Acho que foi mesmo a pessoa mais liberal que já conheci. Mas, ao mesmo tempo, incutia-nos responsabilidades. Eu sempre me lembro de tratar sozinho das minhas coisas. Eu, no que diz respeito à vida política, ía, na minha juventude, a todos os comícios - lembro-me, por exemplo, da campanha por Norton de Matos, em 48, tinha eu 16 anos - mas sempre por iniciativa própria.

"Que esta revolução das flores não seja a revolução das flores de retórica", assim definiu José Gomes Ferreira a alegria do encontro entre os escritores portugueses e os escritores anti-fscistas regressados a Portugal depois de 25 de Abril de 1974.

- E em relação à sua obra : José Gomes Ferreira tinha orgulho nela? Lia-a ou comentava-a à família ?

RHF - O meu pai escrevia muito para ele, mas gostava de ouvir opiniões. A segunda mulher do meu pai - Rosalia Gomes Ferreira, a mãe do meu irmão, que era inclusivé quem lhe batia as obras à máquina - não deixava de manifestar as suas opiniões. E ele prestava também muita atenção às críticas de Abelaira, ou Carlos de Oliveira, por exemplo. Sim, ele gostava de se revelar, embora escrevesse para si. Costumava dizer que tinha um segundo "Eu" que o criticava, que era, no fundo, a sua própria consciência, reflectindo assim a duplicidade de facetas do ser humano e as suas contradições...Partia de uma poesia espontânea para a própria autocrítica.(...)O meu pai lia-nos muito, mas mais a poesia dos outros. Ele era um amante de toda a literatura. Citava com muita frequência Fernando Pessoa e Camões, por exemplo, e gostava especialmente de toda a literatura francesa e russa clássica, que muito o influenciaram. O meu pai chegou a criar também uma biblioteca com livros de poetas e escritores Noruegueses ou traduzidos em Norueguês, como a obra de Tolstoi.

- E o seu irmão? Sei que é, actualmente, um grande poeta - Alexandre Vargas. Acha que hoje o é, por infuência do seu pai? E nunca pensou enveredar pelo mesmo caminho?

RHF - Eu também gostava muito de escrever, mas fui também muito influenciado pela personalidade do arquitecto Keil do Amaral. O meu pai convivia muito com artistas plásticos - sei lá...Manuel Ribeiro de Pavia, a pintora Maria Keil,... - e os meus padrinhos foram Bernardo Marques (desenhador) e Ofélia Marques (uma grande pintora, também). Eu fui criado nas artes, e gostava muito de desenhar. Aos 15, 16 anos, naquelas opções da escola, acabei por enveredar pela arquitectura, e não estou nada arrependido, de facto. Com o meu irmão já foi diferente. Era muito mais novo do que eu - menos 21 anos - e acabou por ter uma relação muito diferente com o meu pai. Quando ele nasceu, já o escritor José Gomes Ferreira era muito conhecido - o que não aconteceu comigo. Apanhou a fase áurea do meu pai, e, influenciado ou não - e acredito que sim - acabou por ingressar em Humanidades, e depois na Faculdade de Letras. Se bem que a poesia dele seja muito diferente da do meu pai : é uma poesia muito de conceitos, abstracta, um pouco hermética e difícil - e daí talvez que ainda não seja muito conhecida. Mas eu pessoalmente gosto muito.

Numa foto «à la minuta» na romaria do Senhor da Serra, em Belas, com Manuel Mendes, Drª Bertha Mendes, Diogo de Macedo, Ofélia Marques e Bernardo Marques (1935)

- Quanto à divulgação da obra do seu pai , acha que ela tem sido suficiente? E a imagem que é dada dele, acha que é a mais correcta?

RHF - Em relação à divulgação da obra, penso que ela tem deixado muito a desejar. Há ainda pelo menos 19 volumes para editar do seu diário - saiu apenas o 1º volume. E há muito outros livros e crónicas para publicar. Eu gostaria de me empenhar mais nisso, mas tenho também muito pouco tempo. Os direitos de autor foram-nos legados a mim e ao meu irmão - e tomamos todas as decisões em conjunto acerca da sua obra - mas o meu irmão é também uma pessoa muito introvertida, não tem "queda" para isso...Eu quero ver se arranjo mais tempo...E, publicado, só há um livro sobre o meu pai, de Alexandre Pinheiro Torres. Ainda surgiu a hipótese de ser feita uma Fotobiografia, mas acabaram por desistir de a publicar. E quanto à imagem do meu pai, há muitas interpretações possíveis àcerca dele, sabe?O meu pai tinha uma grande polivalência de escrita e personalidade. A prática do jornalismo também lhe deu uma certa fluência de estilo. O meu pai escrevia com uma rapidez extraordinária, sobre o que calhasse, embora depois fosse alterando sistematicamente o que escrevera, até alcançar a forma que pretendia.

- E tem alguma obra especial, que aprecie mais, de entre a vasta obra de José Gomes Ferreira? E o próprio autor, tinha alguma obra que lhe agradasse particularmente?

RHF - Eu aprecio toda a sua obra, mas talvez seja a poesia do meu pai que mais me sensibiliza. A "Poesia I" é muito sentida politicamente : foi a guerra de Espanha, por exemplo, e toda a revolta do meu pai..."Poesia II" é mais lírica - embora cubra o período da 2ª Guerra Mundial - e mais madura e talvez me agrade mais. Há também outras obras a que estou muito associado em termos de vivência. Por exemplo, "O Mundo dos Outros" foi uma obra publicada primeiro em crónicas, na revista "Seara Nova" - e até foram as crónicas que tornaram a revista mais atraente, menos política. Muitas dessas crónicas não foram vividas pelo meu pai, mas por outras pessoas, e ele ouvia essas histórias, ou contavam-lhas, e ele acabava por reproduzi-las ao seu estilo. Lembro-me, por exemplo, duma delas, com o título de "A festa saiu-me barata", que relata a história de um pai a contar como tinha transladado o filho para a sua terra, antes de morrer - manteve-o vivo com medicamentos - para a cerimónia lhe sair mais barata. Eu e a minha mãe estávamos nessa retrosaria, onde a conversa se deu. E eu fui, inclusivé, quem contou algumas das histórias de "O Tempo Escandinavo" - morei, com vinte e poucos anos, um ano na Escandinávia - que o meu pai transformava e reproduzia na sua obra. Quanto à posição do meu pai, ele entregava-se muito a todas as suas obras, mas penso que também privilegiava a poesia.

- Uma última pergunta, para terminar esta pequena entrevista. Como se sente, em conclusão, como filho de José Gomes Ferreira?

RHF - Muito orgulhoso, obviamente, sobretudo porque sinto em mim muito do meu pai. Mesmo na arquitectura, sinto-me influenciado por ele. Estou à espera, realmente, de arranjar mais tempo para me dedicar à divulgação do seu nome e da sua obra...

Na casa de Albarraque, José Gomes Ferreira com o filiho mais novo, Alexandre, junto a uma pedra que baptizaram de «Faminto Astral».

[ CITI ]