Gomes Leal

António Duarte Gomes Leal nasceu em Lisboa em 1848, filho de um funcionário da Alfândega, com algumas posses, que morreu em 1876.

Depois dos estudos regulares, foi escrevente de um notário de Lisboa, o que contribuiu para a sua iniciação precoce na literatura e política. Ingressou no Curso Superior de Letras (que não concluiu), mas só foi reconhecido como poeta em 1869, quando publica o folhetim "Trevas" na Revolução de Setembro. É apresentado por Luciano Cordeiro como um dos "poetas Novos", a par de Teófilo Braga, Antero de Quental, Guilherme Braga e Guerra Junqueiro, entre outros.

Escreve não só inúmeros folhetins, como funda com Magalhães Lima, Silva Pinto, Luciano Cordeiro e Guilherme de Azevedo, em 1872, o jornal satírico "O Espectro de Juvenal", alvo de críticas ( "Alma Nova", no Diário de Notícias, com o artigo "Duas Palavras sobre a Poesia Moderna").

No ano da morte de sua irmã (Maria Fausta, sua principal fonte de inspiração) publica "Claridades do Sul" (1875), o seu primeiro livro poético, que, apesar de ainda ultra-romântico, revela já certos aspectos parnasianos (nomeadamente na versificação e temática), numa "poesia sentimental e sinestésica que canta as contradições de uma existência repartida entre os amores venais e a fantasia estelar e exótica, a indignação causada pelas injustiças sociais e o pessimismo, ora negro ora afectadamente cínico e positivista" (Dic.da Lit.Port.).

Escreve outras obras importantes como " A Mulher de Luto" (depois da sua viagem a Madrid em 1878, por ocasião do casamente de Afonso XII) - 1902 -; "A Fome de Camões" e "A Morte de Bocage" (aquando do centenário épico Nacional, em 1881. Reflecte nelas sobre o destino fatal do poeta de missão, com que ele próprio se identificava); no ano seguinte os panfletos poéticos "A Traição" e "O Herege" (pondo em causa o trono na pessoa do rei D.Luís, as Instituições burguesas e a Igreja, gerou um verdadeiro escândalo literário e político); e na linha desta "poesia como voz da Revolução" (como o anunciara Antero de Quental nas Odes Modernas), os folhetins satíricos "A Orgia", "A Morte do Atleta", "A Noviça", e "O Remorso do Facínora"; "A História de Jesus" em 1883 (tendência agora calma e cristã) ; "Fim do Mundo" (volume com as suas poesias de combate) - 1899 -; "Mefistófele em Lisboa" e "Retratos Femininos" ( novas sátiras e quadros da vida urbana) - obras extraordinárias onde conflui o Ultra-Romantismo, satanismo byrónico, Parnasianismo e Simbolismo.

Depois da morte da mãe, que o deixa na miséria, converte-se ao Catolicismo, sendo recolhido em 1913 por uma pessoa piedosa. Dormia de casa em casa, ou nos bancos da praça pública, e chegou a ser apedrejado pelos garotos da rua, até que escritores como T.Pascoaes lançaram um apelo a seu favor, conseguindo que o Parlamento lhe votasse uma pensão anual, que foi o seu sustento até à morte, em 1921.

No que diz respeito à influência que exerceu em J.Gomes Ferreira, G.Leal indicou-lhe o caminho da dúvida relativamente à "Natureza sincera" de João de Deus, pela afirmação categórica de que ela, "insincera" e "impassível", mente, influenciando a temática Homem-Natureza/Impassibilidade da Natureza mecânica, que constituiu o eixo central da poesia de J.G.Ferreira.

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