João de Deus

(1830 - S.Bartolomeu de Messines ; 1896 - Lisboa). Estudou em Coimbra, onde, ao cabo de dez anos de boémia, se bacharelou em Leis (1849-1859). Redigiu, em Beja, o jornal "O Bejense" (1862-1864), e foi, mal a seu grado, eleito deputado em 1869, data em que passa a residir em Lisboa e em que é editada a sua primeira colectânea de poemas ("Flores de Campo"). A partir de 1876, com a publicação de "Cartilha Maternal", consagra-se, com ardor proselítico, à causa do ensino das primeiras letras. Teófilo Braga, seu grande amigo e admirador, colige-lhe as poesias líricas, satíricas e epigramáticas numa só obra: "Campo de Flores" (1893), e, após uma impressionante homenagem nacional em 1895, T.Braga edita-lhe, três anos mais tarde, uma edição de "Prosas".

Surgido para a Poesia numa época em que o ultra-romantismo começava a desacreditar-se, J.de Deus breve se impõe como lírico excepcional pela atitude do sentimento, a singeleza da inspiração e a naturalidade da linguagem. Para o prestígio de que logo em Coimbra se viu rodeado, muito deve também ter contribuído o fascínio exercido pela sua personalidade humana, onde colidiam bondade e candura, ironia, abulia e generosidade.

João de Deus é simultaneamente poeta invocativo (do amor ainda irrealizado - nas cançonetas, odes, canções e idílios) e evocativo (do amor já irrealizável - nas elegias), e daí o frequente emprego dos verbos no modo conjuntivo e dos tempos deste, no imperfeito e no mais-que-perfeito. Tudo isto é, por outro lado, conseguido através de um vocabulário relativamente pobre e de um registo metafórico monótono à força de repetido. - o que singularmente contrasta com a extrema variedade métrica e a abundância de esquemas estróficos que mobiliza.

Como poeta satírico e epigramático, J.de Deus raro se eleva do particularismo da anedota; e só uma certa bonomia o salva de cair por vezes nas piores vulgaridades. Já como fabulista é ele muito mais afortunado, e talvez o nosso melhor poeta do género: pelo sábio emprego de alguns recursos estilísticos (aliterações, onomatopeias, etc.) têm as suas fábulas uma veemência descritiva e, num ou noutro caso, uma impressionante intensidade dramática.

(Dicionário da Literatura, 5 volumes, COELHO, Jacinto do Prado (dir.lit), 3ª edição, Porto, Figueirinhas, volume 4, 1982, p.258)

A influência de João de Deus é notável no escritor José Gomes Ferreira. "A Enjeitadinha" de J.de Deus evoca um quadro simbólico de uma criança solitária que chora de fome e de frio, que parece simbolizar a falência universal da Humanidade. Não há progresso, filosofias após privações satisfeitas, que anulem a dureza da sua realidade. Pelos seus contornos, pela sua evidência, despromove a insignificantes todos os problemas do mundo: o único problema do Homem (de J.G.Ferreira) passará a ser esta Criança. "A Enjeitadinha" abre assim uma porta a J.G.Ferreira: do Universo forrado de livros ressalta uma imagem de criança abandonada - é esta fotografia do Mundo que lhe persistirá no espírito através de anos. Do séc. XIX herda, pois, J.G.Ferreira, uma poesia onde é proeminante a figura do "enjeitado". Todavia, outras poesias de J.de Deus como "Miséria", "Sonho Doirado", "Maria da Graça", "D.Margarida Relvas", "Velho Operário", "As Creches", "Ceguinha", "Oração da Pobre", etc., ter-lhe-ão também mostrado uma humanidade que surge, quase fantástica ou fantasmagoricamente, nos vãos das portas, à luz em desmaio dos candeeiros de gás, pálida, desprovida, destroçada: imagens curtas como flashs, rápidos, close-ups, que não poderão jamais ser repelitos. Eis-nos perante a génese da Criança-mito-símbolo do Autor.

(TORRES, Alexandre P., Vida e Obra de José Gomes Ferreira, 1ªedição, Amadora, Livraria Bertrand, 1975, pp.30 - 45)

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