Positivismo

Novo e vasto movimento de pensamento que consistia (para além daquilo que distingue as diversas formas de Positivismo e os próprios positivistas na reivindicação da validade das diversas ciências frente às ousadas construções especulativas do idealismo transcendental e a importância da experiência sensível frente ao apriorismo próprio da filosofia romântica. Não se tratou apenas de uma direcção filosófica, sob certo aspecto de derivação kantiana, como o idealismo transcendental, mas de um movimento que informa toda a cultura europeia e extra-europeia da segunda metade do séc.XIX. Kant é simultaneamente o filósofo do Eu penso e da actividade ordenadora do espírito e o pensador que assinala como limite da razão o mundo da experiência sensível, negando, consequentemente, a possibilidade de uma metafísica como Ciência - nasce assim o Positivismo. Posto que não é possível extravasar da experiência exterior e interior, dos factos físicos e psíquicos, e posto que não é possível uma metafísica, a filosofia, se não quer abandonar-se a fantasias, deve limitar-se ao conhecimento dos factos da experiência, entendê-los e unificá-los - a filosofia é definida assim como a metodologia da ciência. Contribuiram para o novo pensamento os progressos registados nas ciências da natureza, como a lei da conservação da energia (Robert Mayer - 1842) e a Teoria da evolução das espécies (Darwin - 1859), que são aplicadas também à natureza espiritual do homem em todas as suas manifestações, como a linguagem, a religião e a vida social. A nova tarefa da filosofia consiste em descobrir na multiplicidade dos fenómenos humanos a regularidade e a necessidade com que as leis universais se manifestam. As ciências da natureza têm de ter um espírito filosófico, e a filosofia deve ser marcada pelo espírito das ciências da natureza. O Positivismo substituiu assim a unidade teológica ou mítica da Idade Média, pela unidade positiva operada pela ciência. Cabe-lhe o mérito de chamar a atenção para a positividade da experiência e para o interesse que o progresso ciêntífico pode ter para a filosofia, mas é, no entanto, limitado pelo facto de confundir frequentemente filosofia e ciência, mundo humano e físico, mundo do espírito e da matéria, e por fazer muitas vezes má ciência com base em pseudopressupostos filosóficos, e má filosofia com base em princípios científicos arbitrariamente aplicados fora dos seus limites.

Em Portugal, o Positivismo (sobretudo o de Comte e dos seus discípulos Laffitte e Littré) é identificado com o republicanismo, tornando-se cada vez mais a filosofia comum a liberais e republicanos, difundida nas Universidades, com destaque para a acção de Teófilo Braga no Curso Superior de Letras. Júlio de Matos, juntamente com Teófilo Braga, dirigem a revista "O Positivismo", que se publicou no Porto de 1878 a 1882, tendo por colaboradores Adolfo Coelho, Alexandre da Conceição, Amaral Cirne, Arruda Furtado, Augusto Rocha, Basílio Teles, Bettencourt Raposo, Cândido de Pinho, Consiglieri Pedroso, Ernesto Cabrita, H.Esk Ferrari, João Diogo, Júlio de Matos, Emídio Garcia, Teixeira Bastos, Teófilo Braga, e Vasconcelos Abreu. Esta revista, que inclui bastantes estudos etnográficos, é ainda hoje um valioso repositório de elementos para a etnologia do povo português.

Embora tenha já passado a grande época do Positivismo, ele perdura em escritores que, deliberada ou inconscientemente, aceitam o materialismo e o cientismo numa atitude agnóstica ou declaradamente antimetafísica.

(Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, 20 vols.; secretariado por MAGALHÃES, António Pereira Dias de; OLIVEIRA, Manuel Alves; 1ª ed., Lisboa, editorial Verbo, 15º vol., 1973, pp. 841-845)

[ CITI ]