Renascença Portuguesa

Associação que, na 2ª década do séc.XX, desenvolveu notável acção cultural, com aspectos originais, obedecendo ao propósito de "dar conteúdo renovador e fecundo à revolução republicana" (Jaime Cortesão). As bases foram lançadas em reuniões em Coimbra (27.8.1911) e Lisboa (17.9.1911): "promover a maior cultura do povo português, por meio da conferência, do manifesto, da revista, do livro, da biblioteca, da escola, etc.(...)Revelar a alma lusitana, integrá-la nas suas qualidades essenciais e originárias". Teria sede no Porto, onde recomeçaria a publicação da revista "A Águia", como órgão da sociedade. Animados de juvenil entusiasmo, os seus dirigentes traçam um plano de actividades em múltiplos sectores, constituindo em Junho de 1912 quatro comissões encarregadas do problema religioso, educativo, social e económico. Além d'"A Águia", a Renascença Portuguesa editaria, também no Porto, a partir de 31.1.1912, "Vida Portuguesa", "quinzenário de inquérito à vida portuguesa", dirigido por Jaime Cortesão. Os membros mais prestigiosos e activos são poetas, pensadores, historiadores, economistas, sociólogos e pedagogos. Alguns proferem séries de lições numa Universidade Popular, dinamizando o meio e preparando a criação, no Porto, de uma Faculdade de Letras. As revistas citadas e os livros editados (que, em 1918, montavam a "120 volumes de literatura, arte, ciência, filosofia e crítica social", de autores como Carlos Parreira e o visconde de Vila-Moura, Pascoaes e Mário Beirão, António Sérgio e Ezequiel de Campos, etc.) mostram o espírito largo do movimento, a aceitação de uma diversidade considerada fecunda. Começam a surgir, no entanto, a partir de

José Gomes Ferreira e Teixeira de Pascoaes em Lisboa (1932)

1912, tensões e desacordos, que levam a Renascença Portuguesa a desdobrar-se, definir-se (por oposição) através das próprias dissidências: F.Pessoa e Sá Carneiro afastam-se, insatisfeitos com o Saudosismo que, chefiado por Pascoaes, dominava no grupo (dissidência que acaba por se projectar em "Orfeu"); António Sérgio e Raul Proença, mais "realistas", incompatibilizam-se com o idealismo poético, o tradicionalismo e o ruralismo de Pascoaes (dissidência que conduziria a "Seara Nova"). Mas, se na verdade, em 1918, a Renascença Portuguesa (e a própria "Águia", que se prolonga até 1932) entra em crise manifesta, não deixará de actuar o magistério de Pascoaes e Leonardo Coimbra, continuado por discípulos ilustres. A revista "Portucale", iniciada em 1928, prolongará o espírito de "A Águia", não cessando e esforço de autodefinição nacionalista.

(Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, 20 vols., secretariado por MAGALHÃES, António Pereira Dias; OLIVEIRA, Manuel Alves, 1ª ed., Lisboa, editorial Verbo, vol.16, 1973, pp.273-274)

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