Revolução de Outubro
Ruptura fundamental tal como a derrocada do Império Romano ou a Revolução Francesa, a Revolução Russa foi, ao mesmo tempo, uma continuidade: a da marcha dos povos para formas de vida política, social, económica e cultural, que apontam como metas ideais a liberdade e a igualdade. A revolução Russa teve como antecedentes o movimento dos "dezembristas" liberais de 1825; a formação de uma corrente inovadora de tendências muito diversas em que se encontraram e desenvolveram as doutrinações de escritores e ideólogos como Herzen, Bielinski, Bakunine, Tolstoi, etc; a infiltração das doutrinas marxistas e o despontar dos movimentos proletários organizados; a libertação dos servos a partir de 1861; as correntes terroristas, que só pela via do atentado individualista admitiam a libertação das opressões autocráticas e oligárquicas do czarismo; a grande vaga insurreccional que se manifestou em 1905, coincidindo com a derrota russa na guerra contra o Japão. Em 1914, apesar da força subterrânea do movimento revolucionário do proletariado (ainda dividido entre várias correntes), o povo russo foi ainda para a guerra contra a Alemanha e a Áustria-Hungria. Os desaires da guerra num País desorganizado pelo arcaísmo das instituições e pela corrupção, a fome e a miséria que alastravam sobre um povo tradicionalmente pobre e sacrificado, a energia com que as vanguardas revolucionárias assumiram o comando da inevitável insurreição popular, determinaram em 1917 o curso acelerado dos acontecimentos:
Março: Jornadas revolucionárias em Petrogrado, fracasso da repressão (as tropas aderem ao povo insurgido) e desmoronamento provisório do regime czarista. Um soviete de maioria menchevique constitui-se em poder revolucionário. Um comité provisório, eleito pela Duma, recebe a incumbência de substituir o Gabinete czarista. O soviete entrega o poder ao "comité" provisório, que adoptou o seu programa (amnistia, garantia de liberdades políticas fundamentais, convocação da Assembleia Constituinte). Mas o Soviete não desaparece, e só ele conserva o direito de convocar as massas. Concede ao Governo uma confiança condicionada e, passando por cima do executivo, promulga o "prikaz"nº1 sobre a reorganização do exército, que cria a autoridade das comissões de soldados.
Abril: Lenine regressa à Rússia, aproveitando a amnistia promulgada pelo Governo Liberal, e faz adoptar pelo Partido Bolchevisca as Teses de Abril. Contra os Mencheviques, Lenine opta pela tomada imediata do poder pelos Sovietes e pela realização da revolução proletária. Sovietes de soldados e sovietes de operários constituem-se espontaneamente em toda a Rússia, elegendo sovietes locais.
Maio: Novo Governo provisório, de coligação, no qual participam os sovietes. A presença menchevique não acelera a revolução, e aceita-se a continuação da guerra, embora se difundam as palavras de ordem bolcheviques: paz imediata, terra para os camponeses, todo o poder para os sovietes.
Junho: Congresso dos Sovietes, que apoia o governo de coligação e a continuação da guerra.
Julho: "Jornadas de Julho" (manifestações de operários e soldados sob a direcção do Partido Bolchevique, que é, consequentemente, considerado ilegal). Constitui-se um novo governo provisório de maioria social-democrata, cujo 1ºobjectivo é a repressão contra os bolcheviques, cuja influência aumentou no seio dos sovietes.
Agosto/Setembro: Reorganização e manifestos dos grupos de direita. Prepara-se um golpe de Estado, cuja execução é entregue ao general Kornilov. Os sovietes dirigem a resistência popular contra os militares.
Outubro: Acreditando na completa conversão dos sovietes em organizações bolcheviques, Lenine decide a insurreição geral contra o Governo burguês. A 26 de Outubro o soviete de Petrogrado constitui-se, como governo revolucionário provisário, cuja presidência foi assumida poucos dias depois por Lenine. Em 7 de Novembro, com o assalto do operariado armado e dos soldados revolucionários ao Palácio de Inverno, foi quebrado o último foco de resistência militar e política à Revolução. E sob a palavra de ordem: "Todo o poder aos Sovietes", a vitória bolchevique alastrou rapidamente por toda a Rússia europeia e asiática, logo apoiada pela rapidez e amplitude da organização do Exército Vermelho. Na noite de 7 para 8 de Novembro, o Congresso dos Sovietes em Petrogrado confiou o poder de governo ao Conselho de Comissários do Povo, presidido por Lenine, que logo iniciou uma acção enérgica de transformação económica e social revolucionária, ao mesmo tempo que intentava restabelecer, na imensidade do território russo, uma organização firme de Estado socialista.
(PIJOAN, José, História do Mundo, 1ªedição, 11 volumes, Lisboa, Publicações Alfa, 1973, pp.71 e 77)
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