Simbolismo

Corrente literária que começa a surgir no último quartel do século XIX (1890 em Portugal, com a publicação de poemas "Oaristos" de Eugénio de Castro - introdutor oficial, embora o grande expoente tenha sido Camilo Pessanha), fruto da evolução no campo científico (física, electrónica, biologias, inúmeros progressos técnicos), do novo tipo de relações humanas (fim do feudalismo, e regime de concorrência que acarreta a corrida para a mecanização e racionalização industriais) e económicas ( simbiose do capital bancário e industrial em monopólios, "holdings" e cartéis com sucursais por todo o Mundo. Os Estados poderosos disputam entre si as matérias primas e mão de obra dos Países menos desenvolvidos ), do desenvolvimento de novas atitudes, ideários e concepções (anti-racionalismo de Nietzsche e Bergson; psicanálise de Freud, fenomenologia de Husserl e escola sociológica de Durkheim), e revoluções estéticas ( explosão de novos meios expressivos na arte - impressionismo, cubismo, surrealismo, expressionismo - e revolução na música), que se reflectiram na literatura. Opõe-se às correntes que continuam o realismo-naturalismo, e caracteriza-se sobretudo por um retorno ao "Eu" (egocentrismo e introspecção ainda mais profundos do que no Romantismo, mas afastando-se da confissão directa e oratória romântica); afastamento do Real, em prol da "nebulosidade ( culto do Vago, Oculto, Mistério, Ilusão, Solidão, recuperando a crença na Teologia e Metafísica, anteriormente abandonadas pelo Positivismo); nova gramática e sintaxe psicológica, recorrendo ao Símbolo e à alegoria da imagem, a fim de conseguir traduzir a interioridade e o impalpável; musicalidade, redundando o significante; exploração de temas do quotidiano burguês, folclórico e nacional - inconsciente colectivo, com o qual o artista identifica o conteúdo do seu subconsciente; temas medievais e místicos; visão pessimista da existência, cuja efemeridade é dolorosamente sentida; e métrica de verso livre, com metros sonoros, coloridos e evocativos.

José Gomes Ferreira foi também "contaminado" por esta corrente (provinda talvez inicialmente de Eugénio de Castro), e podemos ler, por exemplo em "Irreal Quotidiano", frases como "a verdade é que hoje o mundo me parece irreal" (...) "Nada fixo. Nada real" (...), ou: "ajeito a gravata e ponho-me a cantar alto, para tentar destruir a atmosfera irreal que persiste em envolver-me", ou "E zaranza, a bater os pés no chão, para o sentir bem, olhei com aturdimento em volta de mim - para o mundo movediço, escoante, ineflexível, real-irreal...", ou ainda, em "Tempo Escandinavo": "Entretanto, nos pares em redor, havia a terrível exactidão irreal da realidade". A posição antipositivista e antinaturalista do autor é evidente, e pode ser resumida da seguinte forma : "o real nunca é o da leitura superficial dos factos, nunca é real empírico. Todo o artista que o seja de verdade tem de afirmar - como dogma - que a própria criação literária ou plástica tem como objectivo a negação desse real superficial, terra-a-terra, ingénuo, fotográfico e imediato" (TORRES, Alexandre Pinheiro, Vida e obra de José Gomes Ferreira, 1ªedição, Amadora, Livraria Bertrand, 1975 )

[ CITI ]