Surrealismo

André Breton, através do seu "Manifeste du Surréalisme" (1924), de mais dois manifestos (1929 e 1946), e de "Prolegómenos", define essa nova corrente literária, onde, mais importante que as dicotomias como vida/morte, real/imaginário, dizível/inefável, consciência/inconsciência, vigília/sono, divino/demoníaco, ou polaridades como alto/baixo ou ideal/material, era a arte poética dos que se definiriam como apoetas, anestetas, amorais, arracionias e apolíticos. O movimento espalha-se pela Europa e pelo Mundo, com características que já tinham sido adivinhadas por Fernando Pessoa: "escrita automática, despremeditado azar, linguagem liberta das peias contextuais, misticismo infernal, associação do oculto e do mágico, revolução da consciência ética, conciliação dos contrários, procura do "ponto central" na edificação da mecânica visionária do Mundo, tudo o que diz respeito ao instinto e à noite da alma, à pré-lógica e à imaginação pura" (Dicionário da Lit.Port.), "aperfeiçoamento absurdizante do aforismo, provérbio ou definição, com novos registos falados; reabilitação do esoterismo; a magia encantatória do Decadentismo; a obsessão quanto a paramnésies, vidências, premonições, aceitando também melhor o anarquismo ou exacerbamento das pulsões sexuais reprimidas; exercícios do automatismo subconsciente; humor negro; interferências de associação verbal".(Hist.da Lit.Port.)

Poetas, pintores e intelectuais do neo-realismo (como António Pedro, que se torna mentor do grupo) formam em 1947 o primeiro Grupo Surrealista de Lisboa - e talvez este atraso não tenha permitido a originalidade convincente dos outros modelos da Europa, permitindo, por seu turno, a influência de outras novas correntes como o Existencialismo, Abjeccionismo, Interseccionismo, Ingenuísmo, Transracionalismo -, realizando a 1ª Exposição no ano seguinte. Entre 1947-50 publicam 4 cadernos, realizam outras exposições, conferências e debates públicos, mas o grupo acaba por se dispersar.

Destacam-se obras e publicações como: "Cadernos de Poesia", "Poemas" (Alberto de Lacerda, 1951), "Teclado Universal" (Fernando de Lemos, 1933) e "Tempo de Fantasma" (Alexandre O`Neil, 1951) - obras ainda de transição entre o neo-realismo e o surrealismo -; "Corpo Visível" (1950), "Discurso sobre a reabilitação do Real Quotidiano"(1952), "Louvor e simplificação de Álvaro de Campos (1953), "Manual de Prestidigitação" (1956), e "Pena Capital" (1957), do 1º grande poeta do movimento: Mário Cesariny de Vasconcelos; "Ossóptico" (1952) e "Isso Ontem Único"(1953) de António Maria Lisboa; "Sete Poemas da Solenidade e um Requiem" (1956) de Carlos Eurico da Costa - os dois últimos que, juntamente com Fernado Lemos, prolongam a linguagem e estilo dos primeiros mestres, vistos como os casos mais representativos de uma literatura que se nega como literatura -; e ainda edições colectivas como "Contraponto e Antologia (1958), "Afixação Proibida" (1953), "Antologia Surrealista do Cadáver Esquisito" (1961), "Surreal/Abjeccionismo" (1963), e "A Intervenção Surrealista" (1966), onde se destacam nomes como Mário Cesariny (organizador das três últimas), António Pedro, António Maria Lisboa, Alexandre O`Neil, Luís Pacheco, Raul de Carvalho., Natália Correia, Manuel de Lima, Ruben A., Mário-Henrique Keiria e José Viale Montinho.

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