Poesia do populismo fácil

O'Neill ignora este tipo de poesia pobre, decadente e estéril: " (...) País purista a prosear bonito, / a versejar tão chique e tão pudico, / enquanto a língua portuguesa se vai rindo, / galhofeira , comigo. "(1)

A poesia neo-realista enquadra-se nesta fórmula cor-de-rosa de ver a realidade, que o poeta rejeitará por completo. Ele destrói a imagem de um proletariado heróico e restitui-lhe a sua condição de anti-herói, abrangendo a melancolia quotidiana, a vida mesquinha, a cobardia; fá-lo em nome da sua poesia da " verdade prática", que se quer civil e vigilante. O surrealismo, esse, também não servia os seus objectivos. Contudo, são essas correntes que atraem o público e trazem para a ribalta o nome dos seus mentores. No entanto, para quem não fizesse disso um objectivo, o Poeta aconselhava:

" Acaba mal o teu verso, / mas fá-lo com um desígnio: / é um mal que não é mal, / é lutar contra o bonito."

"Vai-me a essas rimas que / tão bem desfecham e que / são o pão de ló dos tolos / e torce-lhes o pescoço,(...)"

"(...) Mas também da rima «em cheio» / poderás tirar partido / que a regra é não haver regra, / a não ser a de cada um, / com a sua rima, seu ritmo, / não fazer bom e bonito, / mas fazer bom e expressivo..."(2)

O lado obscuro do real existe, mas não é poeticamente estético descrevê-lo. Paga-se um preço alto por se ousar levantar poeira. O'Neill fica só, com as suas palavras e a verdade de todos.

(1) O País Relativo, in "Feira Cabisbaixa", Ulisseia, Lisboa, 1965

(2) " Bom e Expressivo", in "Poemas com Endereço", Made in Portugal, Ugo Guanda Editore S.r.l., Milano, 1978 (tradução de António Tabucchi)

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