Verso Crítico

Alguns consideram ser esta a base da fórmula de escrever de Alexandre O’Neill. A crítica, a sátira, a ironia, o seu bestiário, a revolta e o humor negro são os inquilinos permanentes que atribuem ao verso de Alexandre O'Neill aquela sonoridade única. O "sal das palavras" dá ao seu verso atitude e força para tratar por tu um tema, como por exemplo, o medo:

" O medo vai ter tudo / fantasmas na ópera / sessões contínuas de espiritismo / milagres / cortejos / frases corajosas / meninas exemplares / seguras casas de penhor / maliciosas casas de passe / conferências várias / congressos muitos / óptimos empregos / poemas originais / e poemas como este / projectos altamente porcos / heróis / (o medo vai ter heróis!) / costureiras reais e irreais / operários / (assim assim) / escriturários (muitos) / intelectuais ( o que se sabe) / a tua voz talvez / talvez a minha / com certeza a deles (...)"(1)

O verso vive muito de uma sua qualidade aprendida com o surrealismo, que é o gosto e a atenção ao pormenor, ao detalhe que escapa fugazmente ao olhar mais incauto: "Aceita as suas próprias mãos / sobre os seus próprios joelhos. // Donde vieram elas até ali? / De que fundo tempo se apuraram as ossudas? " (2)

(1) O Poema Pouco Original do Medo, in " Abandono Vigiado", 1960

(2) Velhos/5, in "A Saca de Orelhas"

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