Sonetos

Para uma melhor visão do conteúdo global dos Sonetos aqui exposto, analisaremos a divisão cíclica elaborada por António Sérgio, embora saliente-se não poder haver uma limitação inexorável à rigidez destes parâmetros, tendo em conta que os sonetos são fruto da vivência de Antero que é sempre dominada pela referida faceta mais clarividente e por outro lado mais pessimista. Sendo assim, pode-se dividir a obra em sete fases, a primeira das quais (1860-1862) incide sobre a produção da sua juventude (Primaveras românticas e Raios da Extinta Luz).

Ultrapassando as angústias juvenis, a vida do poeta açoriano revela todo o ardor revolucionário, de grande elevação moral, expresso sobretudo nos poemas da sua obra Odes modernas.

Todavia, são muitas as decepções do escritor, o que aliado ao agravamento da sua doença gera o desejo de evasão, fazem-no mergulhar no sentimento pessimista, que prevalece entre 1874 e 1880, ao qual se segue o à dura realidade, origem de grandes dores e tormentos interiores (quarto ciclo). No fundo, esta tentativa de evasão e de libertação da adversidade sensível só poderá ter o seu ponto culminante na morte, no não ser (quinto ciclo), constituindo por isso a grande aspiração do poeta: "Dormirei no teu seio inalterável/ Na comunhão da paz universal,/ Morte libertadora e inviolável!" (Op. cit.: 151). Assim, associado à morte, está sem dúvida o o pensamento de Deus (sexto ciclo), embora Antero se demarque das concepções religiosas tradicionais, procurando na filosofia a solução para as inúmeras dúvidas, e é por isso que o penúltimo ciclo debruça-se sobre a metafísica, que conduz à elevação moral e à beatitude dominantes no último ciclo: o da "voz interior" e do amor puro e eterno, no qual o poeta manifesta um ideal de santidade, através do qual se alcança o bem.

Esta obra é, assim, um reflexo de todas as dúvidas, flutuações, esperanças, desalentos de todos os dramas interiores que marcam um espírito irrequieto, irresignável, fervilhante, ávido de certezas acerca da vida, da morte, de Deus, manifestando igualmente uma faceta humanitarista inextinguível. No fundo, a sua mensagem não incide sobre problemas particularizados sobre anseios pessoais, constituindo pelo contrário a voz e a expressão que marcam indelevelmente a finitude do ser. É por isso que mais do que no plano estético, a obra anteriana se destaca pelo pulsar humano que traduz.

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