Sentimento pessimista

São muitas as adversidades e contrariedades vivenciais de Antero que, não conseguindo atingir os seus ideais, até porque a doença assim o não permitia, cai num estado de grande tristeza, melancolia e abstracção, conduzindo o desalento do poeta a um estado de renúncia, de abandono perante as contínuas decepções com que se confrontava e que atormentava o seu espírito: "Deixá-la ir, a ave, a quem roubaram/ Ninho e filhos e tudo, sem piedade.../ Que a leve o ar sem fim da soledade/ Onde as asas partidas a levaram.../ Deixá-la ir, a vela que arrojaram/ Os tufões pelo mar, na escuridade,/Quando a noite surgiu da imensidade,/ Quando os ventos do Sul se levantaram.../ Deixá-la ir, a alma lastimosa,/ Que perdeu fé e paz e confiança,/ À morte queda, à morte silenciosa.../ Deixá-la ir, a nota desprendida/ Dum canto extremo... e a última esperança... E a vida... e o amor... deixá-la ir, a vida!" (Sérgio, 1979: 80).

Na realidade, mesmo se no seu ser, torturado pela dor da não concretização, há rasgos de esperança que o fazem caminhar ansiosamente, rumo à conquista de um sonho. Contudo, no final desta busca, apenas encontra o nada: "Abrem-se as portas d'ouro com fragor.../ Mas dentro encontro só, cheio de dor,/ Silêncio e escuridão e nada mais!" (Op. cit: 81). É por isso que o sol apolíneo dá lugar à escuridão nocturna que traduz a renúncia do seu espírito.

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