Poetas Portugueses Contemporâneos

O poeta busca as confluências onde as coisas coexistem como um rosto de permutação. Ocupa assim na literatura um lugar original como direito que lhe confere uma escrita enraízada nas fontes de um imaginário onde o silêncio e a terra se consagram. Ele navega solitário entre o exílio da palavra êxtase e a conformidade da palavra frustração, os vazios que nos diz, as páginas brancas, a brancura, o corpo e o incêndio desenham o corredor imenso do não dizer, dos gestos desertos, da espera da revelação.

Várias são as opiniões acerca de António Ramos Rosa:

"A sua poesia que é de uma personalidade com um seguro sentido de criação poética e um largo conhecimento das mais modernas experiências, caracteriza-se por uma forte inspiração lírica, voltada para uma expressão dos anseios e limitações do homem moderno, que se afirma com um melancólico humor muito peculiar ou uma veemência calculada e habilmente doseada. A sua originalidade residirá, principalmente, no equilíbrio entre uma sempre a ultrapassar-se amargura adolescente e uma firmeza de tom que se oculta num estilo aparentemente entrecortado e difuso."

Jorge de Sena, in Líricas Portuguesas, 3ª série, 2º volume

"Ultrapassada uma fase inicial, em que a sua poesia se faz eco do quotidiano e em particular de uma realidade social opressiva e alienante, Ramos Rosa cedo enveredará por outro caminho, que não mais abandonará e em que, pelo contrário, se embrenhará cada vez mais ao longo dos anos: o da procura de uma realidade outra, o da descoberta de si mesmo e do mundo na e pela linguagem".

Cristina de Almeida Ribeiro, in Poemas de Ramos Rosa, Ed. Comunicação, Lisboa, 1985

"Toda a poesia de Ramos Rosa parte do princípio de que só diz alguma coisa sobre o mundo na medida em que diz muito sobre ela própria. É, digamos assim, um programa poético que arrasta na sua violência aquele que a ele se consagra, o que é muito simples na sua formulação, mas imensamente complicado na sua concretização: como é que o poema pode restituir o real na sua brutal evidência, apropriar-se do que nomeia e estabelecer uma consubstancialidade entre a matéria e a linguagem?"

António Guerreiro, in prefácio do volume I de Obra Poética

"Tudo quanto olhamos de frente se torna esfinge. Foi o real mesmo que Ramos Rosa fitou até não poder distinguir a visão e o visto. Devorado vivo deixa aos pés do monstro a brancura incorrupta dos seus poemas"

Eduardo Lourenço, in Pequeno Roteiro da História da Literatura Portuguesa,1984, p. 223

"Ramos Rosa faz parte, desde há muito tempo, do pequeníssimo número de poetas, repartidos aqui e ali pelo mundo, que constituem para mim como uma sociedade a um tempo muito secreta e muito aberta ao universo, no seio do qual reina uma maravilhosa confiança e essa estima profunda que nos vincula, algo mais da poesia que nos permite crer sem presunção que salvamos, de todos os modos, algo neste mundo à deriva"

Fernand Vershersen, In Primeiro Jornal, 13/8/83

"Os meus poemas, de facto, aparecem sem qualquer referência, sem indicação de lugares nem de tempo, sem dedicatória. O poema é nu, uma espécie de desidentificação: aparece e, como tal, deve ser lido".

António Ramos Rosa, numa entrevista a Jorge Listopad e a Carlos Câmara Leme, para «O Jornal Ilustrado », em 1987

"A poesia que tenho escrito é uma relação com a natureza e, portanto, é também uma forma activa da contenplação.No meu trabalho poético há duas fases. A primeira está mais ligada a certos condicionalismos sociopolíticos, que têm a ver com o regime repressivo da ditadura fascista. Numa segunda fase, aproximei-me mais de uma atitude contemplativa, de abertura ao mundo e à natureza. Penso que a minha poesia é de certa maneira a identificação de um país que por natureza está sempre submerso - um país latente e submerso."

António Ramos Rosa, in A Revista Expresso, 46-R, 19/11/88

"A minha poesia está muito ligada à terra como toda a poesia moderna, é menos a expressão de uma subjectividade do que uma tentativa de fazer com que a terra aflore à palavra."

António Ramos Rosa, in A Revista Expresso, 48-R, 19/11/88

"Como é óbvio não pode ser fácil falar de um autor que perfaz quatro décadas a publicar livros seus, que tem no seu activo mais de meia centena de livros de poesia; a este impressionante acervo de trabalho poético terão de acrescentar a direcção das revistas Árvore, Cassiopeia, Cadernos do Meio-dia, verificada entre 1951 e 1960 e a publicação de quatro livros: Poesia e a Liberdade livre, Poesia Moderna e a Interrogação do Real, Incisões Oblíquas e Parede Azul que recolhem todo um vasto amor dedicado à crítica de poesia e a um ensaísmo aprofundado da inovadora meditação sobre as condições, génese, o alcance e a intensidade. Existe um aspecto na poesia de Ramos Rosa que se afigura entre um dos mais significativos: o jogo antinómico que se desenvolve no palco da sua escrita."

João Rio de Sousa, numa leitura de poemas de Ramos Rosa, no âmbito do programa da Casa Fernando Pessoa, 13 de Março de 1997

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