Suicídio

Camilo Castelo Branco, o profissional das letras, teve um final trágico, mas opcional. Pôs termo à vida com um tiro de revólver no dia 1 de Junho de 1890. Para se comprender o porquê do suicídio de Camilo, é necessário conhecer a história da sua vida. Desde a infância que a desgraça e a dor o atacavam, a começar pela orfandade aos poucos anos de vida. A própria vivência foi um saltitar de paixão em paixão, de desgosto em desgosto. Os maiores desgostos de Camilo talvez tenham sido a ganância dos familiares, os parcos recursos, as vidas frustradas dos filhos e, sobretudo, a cegueira impiedosa e cruel que o retirava do mundo das letras e do palco da vida. De início, era contra o suicídio, mas a vivência conturbada foi-lhe mostrando que essa viria a ser a única saída. Um conformismo suicida que se denota na carta de 28 de Abril de 1856, a José Barbosa e Silva: «Foi muito grave o prognóstico da minha doença de olhos; mas hoje está averiguado que é efeito de venéreo inveterado. Sofro há 4 meses uma diplopia (vista dupla). É horrível para quem não tem outra distracção além da leitura. Tarde será o meu restabelecimento; mas, valham-me as esperanças de não cegar, porque isto importava um inevitável suicídio.» (1) O sucídio passou a ser vulgar no pensamento de Camilo. Os amigos bem tentaram dissuadi-lo da ideia, mas em vão.Em 1885, o que ainda o prendia à vida era o filho Nuno: «Conto com pouca vida; e, se não a encurto, é porque me custa a deixar um filho que lucra alguma coisa com a minha vida. Mais nada.» (2) A ideia do suicídio caminhava cada vez mais para uma certeza. É em 1887 que se prevê o acto como certo, tal é o teor da carta a Francisco Martins Sarmento, de 12 de Outubro: «Eu bem queria poupar-me ao suicídio; mas desde os 18 anos que pressenti a necessidade dessa evasiva, sem me lembrar que a cegueira seria o impulsor justificadíssimo da catástrofe.» (3)

(1) in Dicionário de Camilo Castelo Branco, de Alexandre Cabral, pg.621, Editorial Caminho, Lisboa, 1988, s/ed.

(2) Op. Cit., pg.622, em carta a Trindade Coelho, de 15 de Dezembro.

(3) Op. Cit., pg.622.

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