Pelas palavras do próprio... Viagem a África
"- Já no termo da sua adolescência, faz uma viagem rápida a África...
- Sim, a bordo do cargueiro «Sofala» que carregava tropas para Timor. Em Lourenço Marques desertei e vim, preso, para Lisboa. Foi no final da guerra. As águas da costa estavam minadas por toda a parte mas eu nunca vi mina nenhuma, a não ser no porto de Durban. Recordo-me do comandante do navio, Gustavo Peixe, que era um leão do mar, curtido pelas estações da pesca do bacalhau na Gronelândia e na Terra Nova. Um personagem do Melville, com uma enorme ternura escondida num corpo brutal! Foi nessa viagem, no Lobito, que conheci o ritual mais repugnante que alguma vez me foi dado conhecer: a desfloração de garotas negras por marinheiros de passagem. «Tirar o cabaço», chamava-se àquilo. A cerimónia começou com o aparecimento, na escada do portaló, duma preta esquelética (chamada Catrina, ainda hoje me lembro), uma preta a assoprar cachimbo e a oferecer o gado disponível. Daquela vez eram raparigas de treze ou catorze anos, se tanto, e, pronto, daí a nada já iam três taxis, com o segundo-piloto e não sei se três ou quatro marinheiros, a caminho dumas palhotas que ficavam lá para os arredores da cidade. Coisa simples, no fim de contas. Oficialmente, aquilo era um casamento legal, registado e tudo, com umas tantas centenas de escudos para dote e as assinaturas dos brancos com nomes falsos. Cor - -recto? Pois, mas logo a seguir, em Lourenço Marques, outra demonstração da moral colonialista. Esta agora pública, sem disfarces. Sentado na esplanada do Café Scala, no sítio mais central da cidade, vi, uma tarde, filas de presos a asfaltarem o pavimento da avenida, ligados por correntes uns aos outros, como escravos."
Cardoso Pires por Cardoso Pires, entrev. de Artur Portela, 1ª edição, Publicações D. Quixote, 1991, 124 p., pp. 27 - 28
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