Nas palavras do próprio... Almanaque
" - Falando de jornalismo, é longa a sua relação com ele. Por dentro. A começar pela revista «Almanaque»... - Bem, hoje fala-se do «Almanaque» como uma revista de vanguarda, mas não se esqueça que, no tempo em que ela existiu, o menos que se dizia era que não passava duma coisa snob, cheia de grafismos, irreverências pretensiosas e não sei mais quê. No entanto o programa era simples: ridicularizar os cosmopolitismos como sinónimos de provincianismo, sacudir os bonzos e demonstrar que a austeridade é uma capa do medo e da ausência de imaginação. Todavia, este programa não foi posto em prática logo de início, porque a revista, como deve estar lembrado, teve uma primeira fase bastante convencional. |
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- Você teve de sair do País um pouco abruptamente...
- Sim, houve um período em que eu tive de me exilar do Pa¡s no começo duma vaga de prisões de intelectuais. Retirei-me do «Almanaque» e de tudo o mais numa fuga mais ou menos discreta... Londres primeiro, Paris depois e, finalmente, o Brasil. Em Paris fui encontrar Castro Soromenho que já lá estava refugiado havia um mês. Era um homem muito frágil fisicamente mas duma coragem admirável, o Soromenho. Vivíamos no mesmo hotel barato da Rue des Écoles, acho que conto isso em E Agora José?, e tivemos dias difíceis, franceses difíceis, ligações difíceis, guerra da Argélia, Salan, Jeune Nation, toda essa merda. Os nossos companheiros de então eram o Aquino de Bragança, o Mário Pinto de Andrade e o Marcelino dos Santos que é hoje vice-presidente da República de Moçambique, qualquer deles mergulhado até ao pescoço na independência africana. Aliás como o próprio Soromenho, que veio a morrer na maior miséria em São Paulo, amparado por Casais Monteiro e Jorge de Sena.
- Segue-se o Brasil, no itinerário desse exílio...
- No Brasil, ou, melhor, no Rio de Janeiro, fiz amizade com Portinari e com Scliar e, através deles, tornei-me colaborador da célebre revista «Senhor», dirigida por Nahum Siroski. Colaborador, mas secreto, assinando sob pseudónimo, porque guardava a esperança de poder voltar a Portugal logo que houvesse uma daquelas marés de bonança que sucediam aos vendavais do salazarismo. E houve. Despedi-me dos amigos - Paulo Francis, Clarice Lispector, Ruben Braga, Nara Leão... - e arrisquei."
Cardoso Pires por Cardoso Pires, entrev. de Artur Portela, 1ª edição, Publicações D. Quixote, 1991, 124 p., pp. 43 - 44
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