Pelas palavras do próprio... Jornalismo
"- Paz à alma do «Almanaque»! Há mais jornalismo na sua carreira...
- Sim, mas antes de director-adjunto do «Diário de Lisboa» a minha experiência abrangia unicamente um certo tipo de jornalismo literário, se é que se lhe possa chamar assim. Foi aí que conheci Víctor Silva Tavares com quem colaborei durante anos.
- Portanto, até ser director-adjunto do «Diário de Lisboa», só jornalismo, vamos, literário..
- Bem... Jornalismo literário, jornalismo cultural... essas fronteiras classificativas são artificiais. Eu próprio desde muito novo as pus de parte quando tentei iniciar-me como escritor através do jornalismo. Foi no tempo em que ainda andava na faculdade, apresentei-me a Joaquim Manso, director do «Diário de Lisboa», e Manso, que era irmão da primeira mulher do meu pai, desiludiu-me com esta definição: « O jornalismo é uma troca de favores. Tire mas é o seu curso e deixe-se de romantismos.» Troca de favores, está a ver? Escusado ser dizer que, muitos anos depois, o jornalismo que eu fui encontrar quando entrei para o mesmo «Diário de Lisboa» estava longe de ser o tal entreposto de favores...
(...)
- Como viveu a experiência de um jornal diário?
- No período em que estive à frente do «Diário de Lisboa», cada hora era vivida em conturbação traumatizante. Foi no período mais aceso do pós-25 de Abril, eu trabalhava dez horas por dia e passava o tempo a apagar os fogos cruzados das facções políticas da redacção.
- Que jornal acabava por sair?
- Curiosamente, nem pior nem melhor do que os outros. Nalguns aspectos, até bastante melhor do que a maior parte deles, mas isso exigia esforços tremendos. O jornalismo naquela altura andava entre o boato e a bandarilha e estava minado por revolucionários entre aspas que hoje ocupam cargos políticos na direita e no governo contrista."
in Cardoso Pires por Cardoso Pires, entrev. de Artur Portela, 1ª edição, Publicações D. Quixote, 1991, 124 p., pp. 46 / 48
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