Mais profundamente... Alexandra Alpha
"Em primeiro lugar, cumpre lembrar que não aparece uma linha dramática permanente que envolva as personagens. Das referências rápidas a momentos da existência quotidiana e por vezes revolucionária de Alexandra, o narrador passa a aspectos sociais, no sentido de oferecer uma visão panorâmica da sociedade portuguesa da actualidade. O estilo cinematográfico de O Anjo Ancorado e de O Hóspede de Job retorna com todo o vigor, ora numa visão de panorama ora em «close».
A história, mesclando o fantástico transcendente por via da linguagem poética com o contingente histórico, inicia-se com a dinâmica de um anjo que se metamorfoseia em um jovem que, ao se precipitar ao solo instala o primeiro tema da obra: o da morte.(...)
Na fixação de pormenores da realidade exterior, a ficção se desenvolve na linha do olhar, repondo certa técnica muito característica do «nouveau-roman», não isenta, contudo, de um ar impressionista em que se associam a dinâmica das acções do anjo e a intensa nota descrivitivista que vai predominar em toda a linha de Alexandra Alpha.
Já nas primeiras páginas, retomando o clima de Corpo-Delito e Balada da Praia dos Cães, Alexandra Alpha caminha decididamente para a organização de um ambiente de mistério e de suspense, pois parece que a morte do anjo, na realidade, um rapaz que voa de asa delta, constitui realmente um assassinato que cumpre às autoridades resolver. Assim, a narrativa, de poética passa a fantástica e depois se metamorfoseia em romance de mistério e suspense e nesta altura começa a configurar-se a personagem de Alexandra Alpha, forte figura feminina, vivendo acima e à margem dos preconceitos morais e sociais.(...)
Participando desde início da área do fantástico, irradiando em seguida para a narrativa de suspense e de mistério, mesclando-se com temas de amor e posturas relativas à poesia de Fernando Pessoa, à ficção de Carlos de Oliveira, chegando até à linguagem cinematográfica, Alexandra Alpha vai-se instalando gradativamente no terreno da intertextualidade.
Em toda a linha do livro (romance?, fábula?, ficção?, policial?, poesia?), mantém-se sempre uma atitude de ironia e crítica à sociedade portuguesa da actualidade, pré e pós-Revolução de 1974.(...)
Em síntese e em conclusão, Alexandra Alpha sobre ser um amplo e profundo discurso ao nível da intertextualidade (da ficção, da poesia, do filme, da política, da religião, da cidade) centrado num fino e subtil processo de ironia e de humor, resolve-se em leitura fundante, necessária e urgente, no que apresenta de instigante e insinuante «puzzle» onde romance e poesia se harmonizam de forma brilhante. Constitui-se sem dúvida numa das melhores obras publicadas nos últimos cinco anos em Portugal. Por tudo isso, é escusado dizer que sua leitura é imprescindível."
DÉCIO, João, "Uma nova faceta da ficção de José Cardoso Pires" in Jornal Letras e Letras, Lisboa, n.º 45, 17 de Abril, 1991, p.14
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