Mais profundamente... O Anjo Ancorado

"Em primeiro lugar o assunto de O Anjo Ancorado apresenta-se, mais do que em qualquer outro livro de José Cardoso Pires, trabalhado em cortes ostensivos e rigorosos de planos, conforme a sua propensão para os contrastes profundos. Estrutura intencional: dum lado o carro de desporto de João (um objecto real, com determinada função); do outro a aldeola de pescadores «sem barcos para discutirem com as águas do oceano» (um povoado sem função concreta, que Guida, para acalmar o seu remorso burguês ainda por cima abstractiza quando o imagina criado por uma onda bíblica). Dum lado a caça desportiva («um mero, um realíssimo mero» apanhado a dormir ou como que por dádiva de Júpiter); do outro, a caça ao perdigoto (uma ave que mal cabe na cova de um dente, «uma coisa que ainda mal saiu do ovo» pela qual o velho arrisca a vida na ponta das falésias) - e, indo até mais longe, num terceiro plano, outro tipo de caça: a perseguição, à distância, que os rapazitos do lugar costumam fazer ao velho sempre que este descobre um pássaro. (...) Luta pela vida demonstrada pelo princípio dos contrastes. Uma luta tão expressamente primitiva que se nos impõe como uma metáfora do struggle for life da lei da selva."

PIRES, José Cardoso, O Anjo Ancorado, 3.ª edição, com um estudo sobre o autor de Alexandre Pinheiro Torres, Lisboa, Moraes Editores, 1964, 218 p., pp. 177-178

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