A Vida

José Cardoso Pires teve uma vida cheia. Por entre as malhas da ditadura, teceu a sua própria escolha de vida em volta da escrita, não deixando fugir oportunidades como a publicidade, ou sonhos efémeros como o jornalismo. Apesar de "beirão", afirma-se mais lisboeta que muitos alfacinhas de nascimento, sentindo a cidade capital de um forma ímpar, visão aliás bem explícita no seu último livro, um "Livro de bordo" para quem quiser navegar ao vento das suas palavras. Foi em Lisboa, rua acima, rua abaixo, que conheceu personagens ímpares da cultura portuguesa como Alexandre O'Neill ou Mário de Cesariny. O que se segue é uma biografia possível (e breve) do escritor e do homem, que se confundem num ser profundamente humano.

 

Biografia Sucinta

1925

Nasceu em São João do Peso, Castelo Branco, filho do oficial de Marinha José António Neves e de Maria Sofia Cardoso Pires Neves. Pela parte materna descende da média burguesia rural e pelo lado paterno de emigrantes fixados nos Estados Unidos.

1932

Frequenta a escola primária n.º 14, no Largo do Leão (em Lisboa).

1935-1944

Estudos secundários no Liceu Camões e frequência de Matemáticas Superiores na Faculdade de Ciências de Lisboa, sem todavia concluir o curso. (Adolescência) Colabora na página literária do jornal «O Globo» e publica comentários de leitura na revista «Afinidades» do Instituto Francês de Lisboa. Publica no quinzenário «Cidade dos Rapazes» (23-2-43), um pequeno ensaio, Loti, o Sonhador.

1945-1946

Alista-se na Marinha Mercante como praticante de piloto sem curso, actividade que abandona compulsivamente, «suspeito de indisciplina e detido em viagem do navio Niassa» (cf. auto da Capitania do Porto de Lisboa, de 2.2.46). Primeiro texto publicado em volume - o conto Salão de Vintém (in Bloco, antologia de jovens universitários). Juntamente com Cesariny, Luís Pacheco, Vespeira, Alexandre O'Neill e Pedro Oom reage ao neo-realismo de concepção populista.

1947

Serviço militar em Vendas Novas e Figueira da Foz. Cercal Novo, «um clarim, uma igreja abraçada ao quartel», é indiscutivelmente a metáfora literária de Vendas Novas na versão de O Hóspede de Job.

1948

Novas e sucessivas ocupações: agente de vendas, correspondente de inglês e intérprete de uma companhia de aviação.

1949

Publicação de Os Caminheiros e Outros Contos (em edição do autor com chancela da editora Centro Bibliográfico). Redactor e depois chefe de redacção da revista feminina «Eva». Com Victor Palla funda a colecção de bolso Os Livros das Três Abelhas e traduz Morte de um Caixeiro Viajante, de Arthur Miller. Tradução de O Pão da Mentira (No Pockets in a Shroud) de Horace McCoy.

1952

Publica Histórias de Amor. O livro, não obstante o artifício do título, é apreendido pela PIDE, que detém simultânamente o autor.

1953

Morte do irmão num acidente de aviação em cumprimento do serviço militar. Dez anos mais tarde, Cardoso Pires dedicar-lhe-á «in memoriam» o romance O Hóspede de Job «como protesto contra a guerra fria e a colonização militares (entrev. «Vida Mundial», 7.12.74).

1954

Primeiro original publicado no estrangeiro: The Outsiders (o conto Os Caminheiros, extraído do volume do mesmo título) n.' 11 da revista «Argosy», Londres. Dirige as Edições Artísticas Fólio onde Aquilino Ribeiro publica O Retrato de Camilo, com litografias de Júlio Pomar e Carlos Botelho, e as traduções de D. Quixote e Novelas Exemplares, ilustradas por João Abel Manta. Na mesma editora, a colecção «Teatro de Vanguarda» que revela em Portugal obras de Beckett, Faulkner e Maiakovski.

1958

Publica O Anjo Ancorado, 1.ª e 2.ª edições (ed. Ulisseia, Lisboa). Participa no Congresso Mundial da Paz, em Estocolmo.

1959

Estágio na revista «Época» de Milão, com vistas à publicação de um semanário que a Censura impediria de sair. A empresa editora lança então a revista «Almanaque» cuja redacção, coordenada por Cardoso Pires, é constituída por Luís Sttau Monteiro, Alexandre O'Neill, Vasco Pulido Valente, Augusto Abelaira e José Cutileiro. «O programa da revista era simples: ridicularizar os provincianismos, cosmopolitizados ou não, sacudir os bonzos contentinhos e demonstrar que a austeridade é a capa do medo e da falta de imaginação» - JCP, entrev. «O Século Ilustrado», 6.6.75. Breve exílio em Paris e no Brasil.

1961

De regresso a Portugal, retoma a direcção de «Almanaque». Membro da direcção da Sociedade Portuguesa de Escritores, presidida por Jaime Cortesão.

1963

Delegado ao Encontro (clandestino) de Escritores Peninsulares realizado em Barcelona. Primeiro romance publicado no estrangeiro: L'Ospite di Giobbe (O Hóspede de Job) Lerici Editori, Milão.

1964

Prémio Camilo Castelo Branco atribuído a O Hóspede de Job.

1965

Estreia de O Render dos Heróis no Teatro Império de Lisboa, com encenação de Fernando Gusmão; interpretações de Carmen Dolores, Rui de Carvalho, Morais e Castro e Rogério Paulo; música de Carlos Paredes.

1966

Com Alçada Baptista, Miller Guerra, Lindley Cintra, Joel Serrão, José-Augusto França, Nuno Bragança e Nuno Teotónio Pereira, constitui o núcleo português da «Association Internationale pour la Liberté de la Culture».

1967

Publicação no «Diário Popular» das crónicas Os Lugares-Comuns. Funda e orienta «& etc.», «magazine das letras, das artes e do espectáculos do «Jornal do Fundão» coordenado por Victor Silva Tavares.

1968

Ainda com a assistência de Victor Silva Tavares, dirige o «Suplemento Literário» (nova fase) do «Diário de Lisboa» e, meses depois, o suplemento «A Mosca», do mesmo jornal.

1969-71

Lecciona Literatura Portuguesa e Brasileira no King's College da Universidade de Londres. Colaborações eventuais na BBC. Entrega à revista «Index» o original do ensaio Técnica do Golpe de Censura. Primeira redacção de Dinossauro Excelentíssimo.

1972

De regresso a Portugal, publica Dinossauro Excelentíssimo. O ensaio Técnica do Golpe de Censura ‚ simultaneamente editado em Londres («Index») e em Paris («Esprit»); a versão original só sairá em Portugal depois da Revolução de 25 de Abril, incluída em E Agora, José? (Moraes Editores, Lisboa, 1977).

1974

«Cerca de mil pessoas assistiram ao encontro cultural que sublinhou o aniversário do "Jornal do Fundão". Um romancista, José Cardoso Pires, um poeta, Eugénio de Andrade e um pintor, Cargaleiro, foram exaustivamente analisados e proclamados testemunhas de um certo tempo português.» - «Diário de Lisboa», 29.1.74. Após a queda da Ditadura interessa-se por analisar «o submundo da polícia política e o tecido psicológico da sua identificação como corpo de terror» (entrev. «Vida Mundial», 7.12.74). O drama Corpo-Delito na Sala de Espelhos, levado à cena seis anos mais tarde, baseia-se nessa experiência. Director-adjunto do «Diário de Lisboa».

1975

Sete Parágrafos Sobre a Liberdade, texto apresentado no XXV Festival da Cidade de Berlim, RFA, e editado pela Damnitz Verlag, de Munique, e por «Neue Deutsch Literatur», de Berlim Leste. Vereador da Câmara Municipal de Lisboa. Participa na Conferência Internacional da Independência de Porto Rico, realizada em Havana. Transmissão na RDP do conto Um Simples Flor nos Teus Cabelos Claros em adaptação radiofónica de Álvaro Belo Marques. Representante português na Reunião de Helsínquia de Bureau da Presidência do Conselho Mundial da Paz.

1976

«Julgamento do Diário de Lisboa», o primeiro processo à liberdade de expressão em democracia. Como responsáveis do jornal, Ruella Ramos e Cardoso Pires respondem pela denúncia dos abusos e violências praticados pela polícia de segurança. Na defesa, os advogados Jorge Sampaio e José Carlos de Vasconcelos e as testemunhas Sophia de Melo Breyner Andersen, Fernando Namora, Ruy Luís Gomes, Jacinto Baptista, José Gomes Ferreira e José Palla e Carmo. Delegado à Reunião do PEN Club de Copenhaga contra a repressão cultural em Espanha e na América Latina. Integra a delegação oficial dos escritores portugueses à Bienal do Livro de São Paulo, Brasil.

1978-79

Vive em Londres como resident-writer da Universidade. Estreia, em Lisboa, no Teatro Aberto, da peça Corpo-Delito na Sala de Espelhos; direcção de Fernando Gusmão, interpretações de Lia Gama, Mário Jacques, Rui Mendes, Morais e Castro e António Montez; coreografia de Vasco Wellenkamp e Lucia Lozano.

1980

Apocalipse 2 - reportagem sobre o Vietname para as revistas «Triunfo», de Madrid, e «Hoy», do México, e parcialmente publicado no «Diário de Lisboa».

1983

Grande Prémio do Romance atribuído à Balada da Praia dos Cães.

1986-87

Les Pas Perdus, conto publicado em Le Monde Diplomatique (Dezembro, 1986) cuja versão original sairá depois em A República dos Corvos, 1988. Balada da Praia dos Cães, filme de José Fonseca e Costa em co-produção luso-espanhola; interpretações de Assumpta Serna, Mário Pardo, Raul Solnado, Patrich Buchau e Sergi Mateu. Poker Aberto, série de cinco crónicas no semanário «O Jornal».

1989-90

Prémio Especial da Associação de Críticos, São Paulo, Brasil, atribuído a Alexandra Alpha. Inauguração do Teatro da Malaposta com O Render dos Heróis em encenação de Mário Barradas e com música de António Vitorino de Almeida. Meses depois, Março de 1990, nova encenação desta peça por Álvaro de Oliveira para o Grupo de Teatro António Aleixo, com música de José Afonso.

1994

Publica A Cavalo no Diabo, conjunto de crónicas que escreveu semanalmente para o Jornal O Público.

1996

Sofre um acidente Vascular-Cerebral, cujo relato será publicado como De Profundis, Valsa Lenta.

1997

Publica De Profundis, Valsa Lenta e Lisboa, Livro de Bordo, um livro sobre Lisboa que estava já para sair quando de Lisboa'94 - Capital da Cultura. Recebe o Prémio Pessoa'97 e o Prémio D.Dinis.

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