O Burro-em-Pé

Edição ilustrada por Júlio Pomar, Moraes Editores, Lisboa, 1979
Edição «Clube do Livro» - Círculo de Leitores, 1980

"Conversa a Várias Vozes numa casa de pasto do Poço do Bispo, Lisboa"

«- Jogo, quê? Mas alguma vez foi o jogo, o burro-em-pé?

- Se serve para apostar é jogo.

- Mas quais apostar, quais joão! Com que ver, com que moral é que você ia apostar num jogo de crianças?

- Aí é que está.

- Além de que nunca foi jogo, caraças. Burro-em-pé nunca foi jogo.

- Nem burro. Burro-em-pé é palhaço.

- Bem visto.

- Não é vaza, não é bisca, não é coisa nenhuma.

- É roda de putos...

- É baralho no ar...

- ...Velhadas a zurrar.

- Velhadas, quê?

- Deixa dizer, pá. É cuspo, é dedo, reinação pra engonhar.

- É moinho de cartas, adivinha a feijões.

- Burro-em-pé é paciência...

- ...Debicar por debicar.

- É brinquedo...

- Entretém...

- ...Pró vôzinho e prá criança.

"Tem-se dado muita desgraça nas brincadeiras das crianças, sim senhor"- disse uma mulher que coçava a cabeça e comia carapaus, encostada ao balcão.»

PIRES, José Cardoso, O Burro-em-Pé, 1.ª edição, Lisboa, Moraes Editores, 1979, p. 5

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