Caminheiros e outros contos
1.ª edição - Centro Bibliográfico, Lisboa, 1949, capa de Júlio Pomar
(a matéria deste livro foi incluída posteriormente na colectânea de contos Jogos de Azar)
"- Nessa altura, ainda não tinha aparecido o seu primeiro livro. Como o publicou? Colocou o original dos Caminheiros e Outros Contos em cima da mesa do editor e disse: aqui estou ... ?
- Não. O livro saiu em edição do autor, com a ajuda de vários amigos. Foi impresso numa tipografia artesanal da Calçada de São Francisco e não queira saber o que me custava subir aquela rua quando me faltava o dinheiro para que a impressão pudesse prosseguir. Vivia-se uma época extremamente difícil, só quatro ou cinco autores é que tinham editor - os consagrados, naturalmente. Começavam então a aparecer os «Novos Prosadores», da Coimbra Editora, Namora, Carlos de Oliveira, Vergílio Ferreira e foi lá que eu fui bater. Sem resultado, como era de esperar.
- Esse primeiro livro, esse escritor principiante, quem acreditou neles?
- Há sempre o nome de Mário Dionísio quando me revejo nos meus inícios de escritor. Procurei-o, sem o conhecer, com o manuscrito na mão, ele próprio descreveu esse encontro aqui há tempos no «JL». Para além dele, os escritores que acreditaram em mim ao primeiro embate, sei lá... Carlos de Oliveira, por exemplo. O Gaspar Simões. Eugénio de Andrade. Repare, no círculo das letras e da crítica a minha estreia foi muito bem acolhida, o que não quer dizer que isso tenha tido algum reflexo no plano editorial. Só anos mais tarde é que eu vim a conhecer o editor Figueiredo de Magalhães que teve para mim uma importância que se calhar nem ele próprio imagina. E se alguém dispõe de imaginação e de sensibilidade para a coisa literária é ele! Em meia dúzia de anos fez da Editora Ulisseia o grande centro de renovação do livro português a um nível gráfico e editorial admiravelmente conseguido. Magalhães tinha qualquer coisa de príncipe florentino e de cardeal herático (eu às vezes via-o assim), mas o que me impressionava e ainda hoje me impressiona nele é o humor lucidíssimo e a grandeza de coração. Foi o Figueiredo de Magalhães que me incitou a trocar a estabilidade correntia pela incerteza de viver da escrita. Vivia mal? Olhe, pelo menos deixava de ter desculpas para me adiar como escritor. O que já não era nada mau."
[ CITI ]