Carlos de Oliveira

 "O andar é o 6.º, esquerdo, Av. Praia da Vitória. À sombra da janela, na cadeira de braços sentava-se Carlos de Oliveira, "o maior escritor português contemporâneo, por ironia do destino nascido no Brasil", disse o Joaquim (Barradas de Carvalho). Nas suas costas ficava o território de caça do grande gato, o telhado percorrido de lés a lés. Subitamente aparecia à janela, batia no vidro depois de espiar sorrateiramente a nuca do poeta: o Mateus Matias, regressado da excitação da vi(d)a aérea e libertina, das guerras sob a estrada de santiago, ao repouso acariciado do interior, à mão de Maria Ângela. O poeta era um astro ancorado aberto aos outros, a atenção oferecida aos outros - palavras, gestos, emoções - com a naturalidade e nobreza dessa modéstia não-fabricada, rara, que punha em tudo: até na sua arte - poesia e prosa -, em que o fulgor quente da inteligência, da imaginação criadora e da mestria técnica está refreado pela disciplina do tempo, a memória: da infância ("transmutação/do sol em oiro"), da terra ("campos, pinheiros e campos/quietos"), de camponeses ("absorve-os o crepúsculo") e rebanhos, do musgo, do bolor, do fogo, do luar. Traiu-o o coração, espaço demasiado trémulo, antes da terra de harmonia que sonhava: "desenho-lhe as sílabas do nome" no silêncio deste tejo de "livros, lírios e lágrimas". Esta em nós "outra herança: /o oiro depositado/ nas margens da lembrança".

Salvato Teles de Menezes

in Os Meus Amigos, de Manuel Costa e Silva,1ª edição, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1983

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