Depoimento de Alexandre Castro Caldas

«Desde o início do século XIX que a ciência se tem preocupado com bases biológicas que sustentam a capacidade de utilizar a linguagem. Os modelos gerados são progressivamente mais complexos e aceita-se hoje que existem regiões do cérebro particularmente envolvidas nessa actividade. Isso significa que quando se fazem estudos em indivíduos normais com as novas técnicas de activação cerebral algumas regiões do hemisfério cerebral, esquerdo e raras do direito evidenciam-se durante a execução de tarefas verbais. Da mesma forma, é já conhecido que uma lesão cerebral que destrua essas regiões provoca também alterações de linguagem.

Isto não quer dizer que a função linguagem se encontra nestes lugares nem que se considera unidimensional. A aquisição da linguagem oral e posteriormente a aprendizagem da linguagem escrita introduz no sistema nervoso em desenvolvimento estratégias organizativas específicas. Quanto às diferentes dimensões da linguagem, é possível decompor o processo em operações múltiplas para as quais se identifica a participação de operadores cerebrais próprios.

Quando uma lesão destrói este arranjo de neurónios a função perturba-se, podendo estar comprometidas as capacidades de produzir discurso, de compreender, de repetir, de escrever e outras, de forma isolada em diferentes combinações, sendo ainda possível fazer uma análise de componentes de cada uma destas funções. Conforme a natureza a localização e a dimensão da lesão que afectou o cérebro, a disfunção será maior ou menor e mais ou menos duradoura.

Nos casos graves, porque a lesão é extensa e foram destruídas regiões fundamentais para o processo da informação verbal, os doentes ficam privados de comunicação através da linguagem para o resto da vida. Nestes casos, adquirem formas alternativas de comunicação que a família e amigos muitas vezes aprendem a descodificar e rentabilizar até à máxima eficácia.

Felizmente nem sempre assim é, e regista-se uma recuperação das funções perdidas, sempre que possível com o apoio de terapeutas da fala. Esta recuperação assenta em variáveis, algumas conhecidas outras não, que têm a ver com o rearranjo funcional das redes neuronais.»

CALDAS, Alexandre Castro, "Da Morte Com Humor. Voltar às palavras." in Revista Visão, Lisboa, 15 de Maio, 1997, pag. 100

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