Excerto de Alexandra Alpha

"(...) Alexandra retirou-se para o seu apartamento de Ipanema mas não para se meditar de erros ou de arrependimentos, antes para sepultar de vez a memória do bem-amado.

Estava ela assim, e já no seu barraco de favela a preta de bom coração estendia o olhar para longe, chamada por uma ideia. Descalça e despenteada, degolou uma galinha e pôs-se a soletrar o sangue espalhado na terra batida. Leu, sentada no chão à beira do menino adormecido, abanado a cabeça compassadamente e rezando gemidos. Com o dedo do pé riscava sinais, com as mãos sacudia nuvens de espíritos que se adensavam à volta dela. Depois, já sossegada, foi-se à criança, lavou-a em água de cheiros e, tomando-a pela mão, desceu a babilónia de gaiolas onde morava e que estava sobrevoada por papagaios de papel de todas as cores."

 PIRES, José Cardoso, Alexandra Alpha, 2ª edição, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1988, 448 p., p. 14.

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