Excerto de A Cavalo no Diabo
Sebastião Opus Night
"Sebastião Opus Night, irmão de um juiz Opus Dei e frequentador de bares nocturnos, vivia a duas memórias, uma para a noite, outra para o dia.
Que fazia esta indivíduo?, perguntava a curiosidade de alguns bebedores, e a resposta pouco adiantava: "Faz sombra", respondiam os barmen. E acrescentavam: "quando lhe bate o sol, bem entendido". Outros afirmavam que nem isso, já que Sebastião era tão só-ele, tão bastante da sua pessoa, que quando descobria que dava sombra a alguém deitava-se. Daí que nunca descesse à cidade antes do pôr-do-sol, fresco e perfumado como um cravo noctívago e pronto a libertar-se das memórias do dia, que eram as que lhe traziam a ressaca do sono e os amargos do whisky.
Durante o seu breve romance com Maria da Paz Soares, Sebastião Opus Night antecipou por algumas horas o seu meridiano do poente para ir arejar os cachorros da amada, quatro ao todo e todos bassés com patas de pé de cómoda. Eram tão compridos, tão rasantes e tão iguais que ao despertar, duvidava de si próprio e pensava que os estava a ver em quadriculado, mas à medida que a noite se aproximava distinguia-os um por um e dava-lhes o nome que lhes competia.
No seu passeio com os cães, Opus Night evitava a luz do entardecer. Atravessava o Jardim da Estrela pelo lado mais sombrio do arvoredo e enfiava pela barbearia do bairro, Salão Contreiras, com os nomes deles todos baralhados na cabeça. Barba e limpeza de unhas, o costume; e o primeiro whisky para acalentar. E com isto, a tarde ia anoitecendo e ele, ao espelho rodeado de cães espalmados no chão, ia-os começando a reconhecer pelo nome. Antes disso como que os confundia com pessoas, Borges, num caso, Chico, Rodolfo ou Guarda Nocturno, noutros casos, e só por prudência é que não os tratava como tal.
"Os cães são o melhor amigo do homem", disse uma vez a manicura Marina enquanto lhe arranjava as unhas. "E estes então são educadíssimos, não incomodam nada. Verdade, meus lindos?".
Opus Night continuou com os olhos no espelho. Parecia um patriarca, de copo de whisky na mão, sentado num lago de cães. Marina, a manicura, passava-lhe a mão por águas e vernizes e contava agora a história de uma donzela desprevenida arrancada às garras dum violador sem escrúpulos por um lobo de Alsácia dedicado. "Encontraram-na sem uma beliscadura", contou ela. "O bandido pelos vistos não deve ter conseguido os seus intentos mas o animal, coitadinho, apareceu morto no vão da escada".
"Suicidou-se?", perguntou Opus Night, desinteressado. Vendo bem, a manicura, com a sua cabecinha de caracóis às virgulas e os olhinhos em botão, também tinha qualquer coisa de caniche. "Aquilo foi o canalha do bandido para se conseguir ver livre do animal", disse ela. "São terríveis, os lobos de Alsácia".
Barbeado e envernizado, Opus Night foi depor os cachorros a casa de Pázinha Soares e enfiou um cravo branco na lapela. Isso queria dizer que ia de largada para os bares, com rota livre e vento de feição. Chegava e ocupava o seu posto: de pé e com as mãos sobre o balcão como quem enfrenta a noite a percorrer o horizonte das garrafas.
Nessa manhã tinha sonhado com violetas, prados de violetas a cintilarem ao sol, mas agora descobria que voavam de gume, asas verticais, como se fossem minúsculas velas de navio a cortar o ar. Não planavam, evidentemente. Deslocavam-se muito trémulas, parecendo perpassadas por uma brisa miudinha. Um sonho assim, pensou, só em sono diurno que é quando o corpo foge à luz e à natureza dos tristes.
O infante da lavoura transmontana em exílio na cidade, ele sabia que o sol ofusca e que a noite faz pensar. E agora, pensando justamente com a memória nocturna, achava que o sono das mariposas na vertical se devia a Pázinha Soares que nas práticas do amor era muito dada a voos de revés e a configurações inesperadas. Pázinha Soares, ampola duma porra, que quem te vai baralhar essas asas hei-de ser eu, disse-lhe ele em pensamento por alturas do quinto whisky dessa noite.
Tanto quanto lhe ensinava a experiência, ao bom amante compete dar toda a asa à amada mesmo que ela se lance em voos de travessura, guiada por instintos malignos. Como era o caso; exacto, como era o caso. Pázinha Soares, enorme de corpo e com alma de pomba, tinha mil diabos a fervilhar-lhe no sangue, a questão era sabê-la assoprar.
Sabê-la assoprar... Quando a lua passava para lá do quinto whisky Opus Night começava a ilustrar-se todo com anexins e com metáforas transmontanas porque, em seu entender, o dicionário da cidade era curto de mais para ele e a voz dos bem falantes andava desagradecida do seu natural. Capisce? Em certos desabafos, Opus Night improvisava até em mirandês e quem não estivesse pelos conformes que fosse dar ouvidos para outro lado.
"Há duas coisas que o copo arrenega", disse ele para o barman. "Trabalhar por vício e beber por fastio. Hoje sinto a modos que um desassossego que não me vai bem com a bebida".
O barman olhou o relógio: era verdade, Sebastião Opus Night nessa noite não estava a condizer com os whiskies do costume.
"Seja como for, vale mais um espírito na mão que um peso no coração", tornou ele, mas percebeu que o barman não tinha apanhado o mote. Dissera espírito em sinal de álcool, bebida; mas era a tal coisa, o dicionário corrente não dava para tudo.
Para exemplificar mandou vir mais um whisky.
Como sempre, com o corres dos copos vinha-lhe uma sagacidade melindrosa, cheia de malignidades. Via dois tipos à mesa do canto, um deles a acompanhar com acenos muito atentos o que o outro ia dizendo. Do bode que faz que sim e do parvo que diz amen, que me livre Deus a mim e ao diabo também pensou. Ou muito se enganava ou aqueles dois estavam ali todos feitos a pousar para a dignidade enquanto não lhes aparecesse algum credor que os pusesse logo a nu e a bailar ao pé coxinho. Acontece. Há mesas de bar que tem três pernas, a gente é que não dá por isso.
Adiante.
Adiante não, porque ali bem perto, noutra mesa, um cliente solitário agarrava-se ao telefone numa conversa triunfal. Via-se pelo silabar precioso e pelo olhar remoto que estava em trabalho de enredo. A masturbação da meia-noite, calculou Opus Night. Nada mais estúpido que uma burguesa na cama a deixar-se masturbar pelo telefone. E isto considerando que o whisky nessa noite não estava para grandes diálogos ou para grandes enleios, tanto faz, e que não era meia-noite sequer.
Mas havia disso, havia disso. Divorciadas em lençóis rendados a esfregarem-se no bocal do telefone ou então a responderem que sim e mais que também e a pensarem noutra voz e noutro destino. Havia disso. E nesse momento Sebastião Opus Night lembrou-se de Pázinha Soares, das suas coxas majestosas e dos quatro cachorros a fazerem-lhe guarda aos pés da cama. Iria abrigar-se nela ao nascer do sol, mais coisa, menos coisa, que é quando o corujão regressa ao ninho e não se diga que o corujão não é um animal de sabedoria e de muito traquejar. Mais um copo?
Desistiu. Estava em noite não, era evidente. Ia mudar de maré para outro bar à espera de corrente propícia porque nem os ventos prometiam nem dava para ancorar. Mar de palha, casa às moscas. E posto isto até amanhã se Deus quiser e se não quisesse pior para Ele.
Saiu, mas ao achar-se na rua sentiu-se dasasado. Frio. Tinha frio e era Agosto, imagine-se. No Largo do Camões olhou a estátua do poeta: estava coberta de pombas adormecidas.
"Se eu amanhã não fizesse folga tinha os gajos todos por minha conta", disse um polícia para outro ao passarem por ele. Iam os dois a passos largos como se levassem destino. E ele sem rumo, ele sem vontade de meter lastro a um balcão acolhedor, caso único. Para onde olhava só via pessoas apressadas, gente a caminho das casas de fado, das discotecas do Bairro Alto ou da madre que os pariu, na sua opinião andava tudo à procura do barulho das luzes, era o que era.
Deteve-se diante dum cartaz de parede: Circo Walther, A MULHER SEREIA, O fenómeno do Século. "Do Sexo", corrigiu ele, o exemplar à vista era uma valquíria anfíbia capaz de fazer cantar todos os peixinhos do Tejo. Ancas poderosas, uma boca ávida e luminosa como a da Pázinha Soares -exacto, como a Pázinha Soares, os mesmos seios redondos, a mesma exuberância, o mesmo olhar nocturno ou coisa assim. Dali até à Pázinha era uma bandeirada de táxi, duas voltas na chave da porta e vamos mas é ao assunto antes que se faça tarde. Foi. Uma vez sem exemplo, o corujão, salvo seja, ia regressar ao ninho à hora dos respeitáveis. Encontraria, já se vê, tudo no primeiro sono. Ou nem isso porque ainda haveria janelas iluminadas lá na rua e talvez uns restos de serões de televisão. Mas foi.
Quando abriu a porta do quarto encontrou Pázinha Soares na cama, ao lado dum índio qualquer, ambos mudos e desesperados como se acabassem de ver entrar um fantasma. Estendidos no chão, os quatro cachorros deitavam-lhe um olhar sonolento de ternura.
Sebastião Opus Night, "noblesse oblige", fez peito. Pronunciou um impulso em mirandês e saiu porta fora. "Já cá os tens", disse em voz alta ao chegar à rua, apalpando a testa.
Esta foi a noite em que ele acrescentou à sua lista de provérbios a sentença de que a pior desgraça dum bebedor é deixar um copo a meio."
PIRES, José Cardoso, A Cavalo no Diabo, 1.ª edição, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1994, 206 p.
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