Excerto de Dinossauro Excelentíssimo

(...)"No gabinete, entre o discurso e a caça às palavras é que o Dinossauro cumpria o seu reinado. Escrevia e vigiava, à sombra do retrato oficial que tinha em cima da secretária e sempre guiado pela sua voz dentro dele. Mas se abrisse a porta podia continuar a ouvir-se, desdobrado pelos altifalantes que havia nos corredores a na sala ao lado onde estava a estátua que era ele mesmo em corpo histórico.

Havia um frio de eternidade naquela teia de circuitos, uma aragem de zumbidos metálicos, e o Dinossauro, atrás da secretária dourada, sua varanda, suas patas leoninas, parecia um sonâmbulo pousado num sonho desértico. Não dormia há séculos, dizia-se dele; outros garantiam: repousam vivo à margem da morte, que é a linha de onde se vê mais claro. De quando em quando as nervuras da teia estremeciam, suspendendo uma gota metálica: TINHA CAÍDO UMA PALAVRA."

PIRES, José Cardoso, A República dos Corvos, 1.ª edição, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1988, 219 p.

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