Excerto de Lisboa, Livro de Bordo

«(...) O rótulo de escritor de Lisboa, agrada-te?

Agrada-me muito, aliás é verdade, o que eu conheço é Lisboa(...) e tenho um fascínio muito grande por Lisboa(...). (Este livro) foi um ajuste de contas comigo mesmo para com uma cidade que eu me fartei dever, e vejo sempre interpretada de uma maneira um bocado convencional e que eu vejo de uma maneira muito diferente.»

«Logo a abrir, apareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade a navegar. Não me admiro: sempre que me sinto em alturas de abranger o mundo, no pico de um miradouro ou sentado numa nuvem, vejo-te em cidade-nave, barca com ruas e jardins por dentro, até a brisa que corre me sabe a sal.(...)

A Cuspir fininho (caricatura de Botelho)

Corvos santificados, mártires à maré e doutores heréticos a receitarem milagres, espécies destas só em Lisboa. É um povo de cais e fado a cavalo dum diabo complacente, a gente que aqui se faz. Por isso, o à-vontade com que se junta na mesma cama o pecado com a virtude e o engenho com que sabe por uma vírgula burlesca numa estória de má sina. Por pudor é capaz de dizer amizade em insulto enternecido, por desdém agride à maneira de elogio: "Chico esperto, mãozinha bruxa", chama ele ao traficante desalmado. No entre-suspeito ouve de manso, pois sim, está bem abelha, e fala pianinho para prevenir e aclarar. Mas se o caso não entra nos acertos é capaz de perder a paciência e então, "gatos ao mar", arranca em discurso de finalmente.(...)

Os velhos de jardim

Aparecem como os gatos quando há sol, mas em bando. De gatos sabemos nós, não há lugar onde eles estejam tão presentes sem se fazerem notar como em Lisboa, mas os velhos de jardim quem os adivinha na sua biografia? Fechados a sete chaves na reforma ou na viuvez enquanto o mau tempo os tem de sobreaviso, saltam para a rua assim que abre o sol e distribuem-se pelos jardins a jogar às cartas. Fazem grupo, nos bancos onde antes se sentavam os namorados, montam casino e conversa, e, cheios de convicção e de ferrugem, batem o ás e a manilha com a prudência que lhes ensinou a idade.(...)>>

PIRES, José Cardoso, Lisboa, Livro de Bordo - vozes, olhares, memorações. Lisboa, Publicações Dom Quixote/Expo 98, 1997, 124 p., pp. 7, 31, 32, 42, 45

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