Lisboa, Livro de Bordo
"vozes, olhares, memorações"
1997, Publicações D. Quixote, Lda./ Parque Expo 98, S.A.
| «Este livro devia ter sido lido no Procópio, talvez o único bar do mundo com chafariz à porta, e este artigo devia estar a ser escrito no British Bar ("tem um sabor a cais sem água à vista, este lugar"), mas esses estabelecimentos, para não dizer instituições, santuários aparentes de José Cardoso Pires (santuários em sentido propriamente dele, não em sentido religioso, faulkneriano ou vietnamita), não se prestam ao pobre exercício do jornalismo escrito. As mesas de um são pequenas para o magnífico álbum de formato 24x28cm (mais ou menos que é Lisboa, Livro de Bordo - vozes, olhares, memorações, e as do outro são pequenas mesmo para um computador miniaturizado. E como estar a ler um livro desses, à luz de um candeeiro de bar, ou a escrever sobre ele, sem uma câmara de televisão a filmar o leitor ou o escriba, para tornar a cena vagamente verosímel?(...) | ![]() |
Não é romance, devem ter calculado. A lenda diz que a obra foi encomendada pela capital da cultura Lisboa-94 (e ainda o Vasco Pulido Valente, que aliás aprecia o José Cardoso Pires, diz que esse género de iniciativas é um mero desperdício), mas só agora publicado, nas vésperas da Lisboa-98 (e com o apoio da Expo, na qual, em vários idiomas, representará o espírito do lugar alfacinha). Não sei, pouco me importa. Cheguei mesmo a supor que era apenas um trecho de alto jornalismo ou de boa crónica, o que já nos faria atentos e obrigados. Afinal é mais. (...) O luxo, além do texto, está no corpo físico do álbum, muito bem desenhado pelo "atelier" de Henrique Cayatte (com colaboração de Sara Lima) e ilustrado com algumas fotografias e sobretudo com reproduções de Botelho, Eloy, Pomar, Vieira da Silva, Abel Manta, Rafael Bordalo, Stuart e outros, numa escolha também ela artística, sem o menor folclorismo, e que se vai amenamente conjugando com os ambientes convocados pelo texto.(...)
O autor leva-nos a passear, ou a passar, por onde lhe apetece, privilegiando os lugares de que gosta (sem deixar de dar bicadas a alguns aspectos que o aborrecem na cidade dos corvos). Uma Lisboa ondulante e diversa, embora a vamos reconhecendo ao sabor do gosto divagante, mas ordenado, com que o escritor a dá a conhecer.(...)
Mantendo o belo conjunto de imagens que o convertem não em "coffee-table book" mas num livro- -objecto no melhor sentido do termo, ou seja, o de um objecto que nos sujeita.»
BELARD, Francisco, "Fados Vadios" in Jornal Expresso, Lisboa, 8 de Novembro, 1997
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