Nas palavras do próprio... Lisboa, Livro de Bordo
«Como lhe surgiu a ideia deste livro?
Quando Lisboa foi Capital Europeia da Cultura comecei a pensar em escrevê-lo. E escrevi uma primeira versão, maior (como sempre). Mas deixei ficar. No ano passado decidi repegar-lhe. E interessei-me. As ilustrações vieram depois. Todas escolhidas por mim, com lay-out do Henrique Cayatte, que é um bom designer. Pelo meio descobri uma coisa inesperada. Julgava que havia muita boa ficção sobre Lisboa. Não há. A boa, de qualidade, é muito pouca. Falando de escritores vivos, há um livro notabilíssimo, "Casas Pardas", da Maria Velho da Costa, com diálogos e achados de transmissão sonora fantásticos, que fazem do livro uma das melhores coisas que se escreveram em literatura portuguesa. Há um Diniz Machado ("O que diz Molero"). Há toda a Benfica, toda uma Lisboa rasgada aos bocados, antes e depois da guerra colonial, e uma infância contada pelo António Lobo Antunes. E haverá mais um ou outro.
Esta sua "Lisboa" é uma geografia sentimental de sítios. Pelos quais, curiosamente, a sua vida não passa. É por pudor?
Talvez. Mas no meu livro "A Cavalo no Diabo" falo nisso: na Almirante Reis, nos imperadores do Chile, nos bailes, na Lisboa nocturna, a minha vida. Neste livro quis fazer outra coisa: uma espécie de levantamento que desse, com toda a sinceridade, o modo como sinto Lisboa. E é aí que o livro me parece muito diferente da Lisboa convencional do Tejo que é bonito, etc. Há ainda muitas coisas que faltam e que espero trabalhar numa próxima edição: a sintaxe lisboeta. Está abordada, mas não aprofundada. E os cheiros...
Refere alguns.
Mas há muitos mais. Tive a preocupação de não fazer uma coisa exaustiva. Não, como você disse, por pudor. Mas talvez por me sentir pouco à vontade para me meter no interior da cidade. Agarro-me a algo a que estou implícito: ao O`Neill, por exemplo, para mim talvez o maior poeta de Lisboa. E a todo o humor, que é uma das cargas mais importantes que Lisboa tem. Mesmo naquilo a que eu posso chamar a sintaxe urbana de Lisboa, ou seja, a conjugação das ruas, dos relevos e da luz num estilo muito próprio tende a criar, ou a incentivar, ou a concentrar, o "espírito do lugar". Esse "espírito do lugar" revela-se, entre outras coisas no discurso lisboeta, já sabemos. Mas ao falar do discurso, não é o linguajar, nem o achado vocabular e, muito menos o calão que eu aponto como mais-valia. Não, o que deslumbra é a sintaxe - outra sintaxe, esta agora da voz -, a sintaxe em que o lisboeta de raíz assenta a frase, os reforços expletivos, por exemplo, com que ele transmite um humor, e que não é mais do que uma outra expressão do seu "espírito de lugar".(...)
(...) neste livro mete-se pelo metropolitano e pelas estações mais recentes...
Sim, sim. Eu quis falar de uma Lisboa que tivesse experimentado. Se fosse fazer um roteiro literário seriam para aí trezentas ou quatrocentas páginas. Ora eu quis fazer uma coisa leve, um ponto de partida para um dia aprofundar. Ou eu ou alguém. Esta Lisboa é a que, tanto quanto possível, foge ao roteiro turístico. Claro que acabo com uma coisa inspirada em Damião de Góis, mas é uma brincadeira, é o meu gozo pessoal. O que me interessou foi chamar a atenção para a articulação das faces de Lisboa: uns azulejos que se reflectem nas calçadas, as calçadas que entram pelo Metropolitano. E o metropolitano é das coisas mais bonitas que Lisboa tem. E digo-lhe -e gostava que isto saísse na entrevista- tenho muito medo que a política que foi seguida pelo metropolitano seja atraiçoada. Não sei sinceramente quem é que lá está agora, mas tenho muito medo dos pragmatismos económicos, do pensar que este país não está cá para felistrias, letras são tretas e artes são maginâncias. Tenho medo que oa responsáveis do metropolitano digam: "Vamos lá poupar dinheirinho e fazer disto um canal.". Um canal nocturno, que o que acontece em Nova Iorque, em Paris e na maior parte dos metropolitanos do mundo.
Ora o metropolitano de Lisboa é das coisas mais dignas desta cidade. E sobretudo define uma atitude. Estou tão surpreendido que numa cidade suja exista um metropolitano exemplarmente limpo, que tenho medo que os seus actuais responsáveis sejam destituídos de sensibilidade.(...)
Passemos à música. No livro fala de fado e do Jorge Peixinho. É um arco alto lá com ele, no meio do qual não cabe referência musical nenhuma.
Não sei...
"É terça-feira/ Feira da Ladra". Sérgio Godinho, por exemplo, não lhe diz nada?
Ah! Tem toda a razão. Mas eu quis centrar a música mais sobre o fado. Desde os meus tempos de jovem, apesar do Lopes Graça passar a vida a gemer contra o fado, que gosto muito de fado.(...) Quis uma coisa leve, não exaustiva. Chamar a atenção para o lado artístico de Lisboa e para o humor de Lisboa. Um tipo só gosta de uma cidade - e é isso que eu pretendia que se sentisse neste meu livro- quando é cúmplice dela. Interrogar a cidade é fácil, isso qualquer turista faz. Mas um tipo só está a viver numa cidade quando se sente interrogado por ela: "O que é que tu tens a ver comigo?", "Porque é que tu estás aqui?", "Como é que tu te adaptas?", "Porque é que tu não te entendes?" Paris, por exemplo, não me interroga, despreza-me. Enquanto que nas cidades de que gosto (Londres, Rio de Janeiro, Barcelona, Praga), sinto-me interrogado. Em toda a parte há bocados de mim.
A propósito de bocados de si: no livro há referências a tascas, a tabernas, a bares, mas não a cafés (excepto dois ou três de outrora), nem a estádios de futebol. Ora o Zé Cardoso Pires andou por cafés e gosta de futebol.
Eu nunca fui grande frequentador de cafés.(...) Hoje não há cafés. E quanto ao futebol, era preciso que eu fosse um ingénuo. Onde é que está o futebol português? Para que é que serve? O prestígio do futebol português é o de meia dúzia de grandes jogadores, que eu admiro, e que estão colocados aqui e acolá.(...) Uma coisa que você não notou: não falo de monumentos...
Julgo ter percebido porquê: para si, o grande monumento de Lisboa é a cidade.
Comparada com o Porto, Lisboa tem muito menos monumentos de qualidade. Tirando os Jerónimos, o Aqueduto das Águas Livres, pouco mais tem. A Sé? Logo aqui em Espanha há catorze ou quinze daquelas. Casa dos Bicos pela Europa fora há não sei quantas iguaizinhas. Então e o pós-moderno... Faz rir
Está-me a dizer isso e no seu livro Lisboa é o paraíso.
Por acaso isso é bem observado. Mas eu não quis fazer disto uma obra de propaganda. É uma Lisboa que tenho na memória.»
SILVA, Rodrigues da, "Lisboa Em Livro(s). Cidade, minha cúmplice." in Jornal de Letras, Lisboa, 19 de Novembro, 1997
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