Depoimento de António Lobo Antunes

«Livro inclassificável este: não é romance, não é novela, não é conto, não é ensaio, não é documento, não é testemunho, não é relato: é tudo isso não é nada disso, uma escrita a pulso firme no puro gume, no limite da técnica, jogo de póquer aberto ganho contra o leitor com todas as cartas à mostra, sequência de bilhar às três tabelas numa exacta, fascinante geometria de palavras. Explico-me: quando pensamos num narrador pensamos em alguém capaz de prever o passado e lembrar-se do futuro. Estas são as duas premissas essenciais ao nosso trabalho, o segredo de polichinelo da ficção. Ao apresentar-nos um homem sem memória, dela perdido e que a perdeu, o autor fica voluntariamente incapaz de utilizar tais artifícios indispensáveis, de tornar-se o charlatão sem escrúpulos que qualquer criador, para o ser, é. Como conseguir o jogo de espelhos, a manobra de dedos, o ilusionismo da prosa sem mangas para os ases escondidos?

José Cardoso Pires escolheu apresentar os duques e os ternos do baralho, de frente para o leitor , sem mover as mãos. Esta absoluta economia de meios, esta recusa de valetes, esta secura de gestos, permite-lhe vencer: num ar rarefeito de campânula as cartas baixas derrotam-nos. Ilumina o livro de cima, na vertical, como as mesas operatórias e os ringues de boxe, concentra a acção em três metros quadrados de sofrimento; não existe nada mais perigoso para um escritor do que abolir as sombras.

Deixam de se poder telefonar os golpes e a menor ruga da frase torna-se cicatriz: nenhum gesto de faca pode errar o alvo porque tinge de vermelho a brancura indispensável. Na primeira quebra de tensão o artista afunda-se, o espectador abandona o livro começa a escrever-se sozinho até ao fim da pilha, desgovernado. Para Macedónio Fernandez, conhecedor do ofício, livro mau é aquele que continua a falar quando já nos fomos embora. Para mim, livro bom é o que temos a sensação de o fazer nós mesmos, à medida que lhe lemos as páginas. Como este, sábio de sabedoria escondida sem rabo de fora, policiadíssimo. Quem trabalha por dentro das palavras admira-lhe a extrema vigilância, a certeza do aparo. Os dois comparsas do hospital, por exemplo, corvos de São Vicente da nau da enfermaria aos gritos no mastro, ao fugir à tentação de os colorir, de os transformar em robertos filosofantes ou cómicos, adquirem a dimensão a preto e branco de caixa de ressonância que purifica a acção por a despir.

De Profundis, Valsa Lenta possui a nudez clara, plana, de uma tábua de autópsia incomplacente. E aqui reside outra das virtudes primordiais do texto, cerzido sob a voz: a desapiedade objectiva da morte e a trágica indiferença da agonia mediante o uso de um humor gelado, em que os pregos do caixão tomam o lugar dos dentes. Consegue-se liofilizando a prosa, reduzindo-a a um cubo concentrado que o leitor expande na água quente do seu medo. O uso alternado da primeira e da terceira pessoa impõe um ritmo cardíaco, de tambor nas orelhas, até à explosão da música final em simultâneo com o apagar das luzes.

José Cardoso Pires não fica para receber aplausos, não vem à boca do palco agradecer, não oferece encores. O foco tomba numa cena vazia onde ele não está e nós continuamos. Eis, meus senhores, o selo da ética, a marca da água do escritor raro: deixar-nos quase com desprezo os instrumentos de que se serviu e na sua ausência se transformam em pobres objectos inertes, oferecendo-nos o espanto de como, com aparentemente tão pouco, se levanta um mundo.»

ANTUNES, António Lobo, "Da Morte Com Humor. O espanto oferecido." in Revista Visão, Lisboa, 15 de Maio, 1997, pag. 102

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