Cardoso Pires por... Alexandre Pinheiro Torres
DE COMO JOSÉ CARDOSO PIRES (MAL AJUDADO POR SACATRAPO) PESCOU O SEU PRIMEIRO TUBARÃO-AZUL NA CORNUALHA
"I. A cintilação solar dos copos estava no ocaso. Mas no restaurante The Golden Bough, ao Strand, havia ainda luz que bastasse para tingir de cintilâncias o jantar que um grupo de admiradores oferecera a José Cardoso Pires, após dois anos bem medidos na Terra dos Fetos. Falhara o Vitorino!
Era ao entardecer da mesma tarde em que do alto da cátedra do King's College, o Senhor Escritor de O Delfim dera a sua última lição na Universidade de Londres. José Cardoso Pires exibia, por essa altura, um esplêndido bigode bem preto, que a barba que ele rapava com cuidado mostrara já tendência para exibir três cores: o ainda negro que herdara da chucha beiroa, a intrometida cã, e um castanho-aloirado suspeito. Bigode com dinheiro, honra o cavaleiro, mas barba de três cores é barba de traidores. E para quê barba? Se a barba fosse tudo podia o bode pregar.
Sacatrapo de cara rapada à cautela. Conterrâneo de Zé Cardoso, andava ali a fazer ponto de cruz em pano-alheio. (...)
VII. No dia seguinte o Senhor Escritor e o Zoólogo meteram-se no escangalhado Cortina do Sacatrapo e abalaram todos para Mevagissey. O Zoólogo esparramado no banco de trás dormia como um funcionário público. Zé Cardoso embora de cabeça pendente ia muito teso porque os cintos de segurança não lhe facultavam grandes liberdades. A Princípio a Terra dos Fetos fez justiça ao nome. Eram fetos e mais fetos. Faziam paragens de pub em pub e Cardoso Pires desabafava:
«Faz-me falta o Vitorino. Não bebas Sacatrapo se não ainda te esbarras: morre o lobo e o demo não fica em casa, vai connosco.» ( ...)
VIII. Ninguém mais abriu a boca até chegarem a Mevagissey. Melhor: abriu-se apenas nos pubs para Cardoso Pires. Sacatrapo olhava à volta enquanto conduzia o Cortina e realmente a Terra dos Fetos era uma paisagem de vacas. (...)
XI. Neste próprio instante, o Zoólogo vira-se para Mister Haddock e observa-lhe carrancudo:
«Deixemo-nos de farsas. É preciso fazer tentativas sérias para apanhar um tubarão. Você nem sequer ainda preparou o rubby-dubby!»
O cornualho experimentado exibe um ar de consternação. Cardoso Pires e Sacatrapo encolhem os ombros de perplexidade que o forno pelos olhos já se lhes aquentara.
«Rubby-dubby?», perguntam.
«Rubby-dubby», explica o Zoólogo, «é uma massa de peixe que se coloca num saco de rede suficientemente fina para que, depois de lançado à água, embora preso ao barco, deixe um rasto de sangue e detritos de carne que atraiam os tubarões. O tubarão tem que cheirar sangue!» Zé Cardoso torce-se no trono, ansioso por lançar a coroa de rei ao mar.
«Mas, ó Professor, até aqui isto de tubarões foi para si um vigário. Não havia por aqui tubarão desde o tempo de Sir Walter Raleigh. De repente, é só vender mel ao colmeiro. Agora o senhor até pensa que vem aí o mar e diz às pegas: beijo as mãos a Vossas Mercês. Então a colaborar também no mito dos tubarões da Cornualha? O que eu quero é ir-me embora, porque se não isto ainda dá em vício não castigado.»
Haddock, porém, começara a preparar, de pronto, a nojenta mistela. O barco já baloiçava em excesso com a força do vento. Sacatrapo e o Zoólogo mal se mantinham de pé, mãos sempre agarradas aos apoios mais a jeito. Mar picado por todos os lados. Quem lhes poderia ali jurar que, numa direcção qualquer, haveria terra? Até um cego diria que sim, mas ide a um cego, dai-lhe um espelho e vede se ele vos agradece.
No mesmo momento em que o rubby-dubby é atirado à água, o vento projecta na bigodaça de Zé Cardoso uma grande chapada de água. Pragueja forte:
«Um vendaval destes é que eu queria em Lisboa. A quantidade de cabeças que nós veríamos a esvoaçar pelo Rossio.(...)»
XII. Seguem com pouco vapor mais duas milhas. Mevagissey existirá? Ou será apenas um ponto no passado que ficou entregue aos vivos que, como se diz em Peso, são os mortos em férias?
Zé Cardoso, em transe místico, pesca sucessivamente uma Raja clavata, um enorme Gadus merlangus, um brilhante e gordo Glupea harengus, um pontiagudíssimo Xiphias gladias (que nem na ilha da Madeira) e um ameaçador Pristis antiguaram. Nestes dois últimos nomes gritados em êxtase pelo Zoólogo vi apenas o que vê qualquer dona de casa de Castelo Branco: um peixe-espada e um peixe-serra. Muita cera queima a igreja!
Até que a grossíssima cana quase salta das mãos de Cardoso Pires que dá semelhante berro que o vento pareceu calar-se durante alguns segundos. Um esqualo enorme erguia-se a mais de quatro metros de altura, a bombordo, à distância de umas cento e cinquenta jardas.
Haddock ajuda Pires à cana e grita:
«A shark! A real shark! A real blue shark!»
Imagine-se! Desde os tempos de Cromwell ou de Sir Francis Drake! Sacatrapo de boca aberta espera a confirmação do Zoólogo. Sempre era uma besta de borla e capelo Este mete, rápido, a mão no alforges donde extrai um binóculo:
«Correcto, Haddock», ronca, possesso. «É um Priorna glauca, como está empalhado no Museu Marítimo de Plymouth.»
O tubarão estrebucha em saltos violentos. O Zoólogo não larga o binóculo.Corre - -lhe uma baba esbranquiçada pela boca. Sacatrapo, ao ver o caudal de saliva que o vento esparrinha para todo o lado, muda logo de ponto cardeal. Mas não pára de gritar. Tudo berra e gesticula que na bigorna se prova o ferro. Admirava-se com a determinação quase tresloucada de Cardoso Pires. Com a breca!, que aquele mosteiro não ia cair por falta de frade. Aguentava a cana cerrando de tal forma a rija dentadura que esta rangia como as locomotivas da linha do Vale do Tua.
Haddock, rápido e habilíssimo, faz girar o carreto que, a golpes de músculo do Senhor Escritor, vai engolindo linha. Sacatrapo fica-lhe até com medo porque nunca pensou que o conterrâneo tivesse tanta força. Haddock, praguejando as piores blasfémias, escorrega no convés encharcado, retoma o equilíbrio, e prepara-se para arpoar a fera quando esta se aproximar da chalupa. Os saltos do tubarão fazem agora entornar sobre o barco toneladas de água. Tudo ali seguia cheio de esperança num feito heróico, mas ainda acabariam por morrer sem pagar. Que a nabiça queria unto era um facto. E onde buscá-lo, aos músculos?
Zé Cardoso, todavia, aguenta o monstro sozinho. Com os braços, o maldelazento Sacatrapo agarra-se com quantas forças tem à cinta de Zé Cardoso a reforçar as correias fortíssimas que o amarravam ao trono:
«Larga, Sacatrapo!, que só atrapalhas.» Tudo vocifera e brama. Mas, como se diz em Peso, muitos brados cabem no cu do lobo. Ao tubarão bastava-lhe estar amarrado pelos queixos e com a fortíssima dor de dentes tentar apagar o fogo a golpes de rabo.
Sacatrapo vê que o Senhor Escritor está possuído de uma raiva louca, ensopado dos pés à cabeça, já que a água do espadanar no esqualo, desembestada pelos ventos contrários, associa-se às ondas que, às vezes, ressacam mais altas que a amurada.
«É um plagióstomo de respeito», arfa o Zoólogo, «indiscutivelmente o primeiro pescado há muitos séculos na Cornualha.»(...)
XIII. Estão mergulhados numa imensa nuvem de água. O tubarão salta-lhes já a menos de vinte metros. Se Haddock não consegue arpoá-lo iria tudo para o fundo. Não podiam contar com os ossos do defunto, ou, o que dá o mesmo, era preciso que não esperassem que mais depressa lhes chegaria a manteiga ao prato que o pão antes de prepará-lo para as torradas.
Cardoso Pires está transformado num atlas de músculos numa sala de anatomia. Haddock berra a Sacatrapo que prepare o martelo. Que martelo?, pergunta o pobre. O cornualho aponta para uma enorme maçaneta que Sacatrapo consegue manter a meia altura depois de três quedas desamparadas.
O Zoólogo vem em auxílio dele:
«Logo que Haddock arpoe o tubarão e o focinho da besta aflore à amurada açape-lhe com isso entre os olhos.»
Num esticão terrível, em que os ossos de Cardoso Pires todos estalam como morteiros nas festas da Senhora da Agonia, o plagióstomo, como lhe chamou o professor, fica ao alcance do arpão do cornualhês. Este mergulhado rigoroso e com uma velocidade perfurante de bala dum-dum no corpanzil do realíssimo Priornarce glauca. Uma tromba de água atira ao chão o martelo o qual passa de raspão pelas pernas do Zoólogo, o qual grita:
«Ai que ia ficando sem pernas!»
E Sacatrapo:
«Lavrador antes sem orelhas que sem uma ovelha!»
Haddock e Zé Cardoso fazem um esforço colossal para guindar o tubarão para dentro do barco e Sacatrapo, já de pé, mas em desequilíbrio, manda uma martelada ciclópica à sobrolhada do plagióstomo, tão direita que o camartelo arranca dois metros de debrum da amurada.
A Praga de Haddock foi medonha e o seu gesto ameaçador. Antes porém que Sacatrapo tivesse tempo de reflectir, o Zoólogo arranca-lhe o trambolho das unhas e desaba tal pilonada no toutiço do esqualo que um espicho de sangue lhe irrompe do tutano e empasta o «conterrâneo» dos pés à cabeça. O barco não virou por um milagre especial do Santo Bom Homem dos Olivais que, como mora na Sé, fecha-se-lhe a porta quando é noite e há borrasca. (...)
XIV. A chegada a Mevagissey foi de triunfo. Fora uma vitória real, que se podia apalpar, estava ali o troféu arrancado das águas com mãos de mestre. Quanto a Sacatrapo a vitória moral era sempre um desastre e ele disse-o a Zé Cardoso que respondeu que realmente os mortos nunca sabem o que é o triunfo e que o êxito depois de nós defuntos é conversa de padres e generais.
Haddock aprestara-se a avisar as autoridades do porto pela rádio e, mesmo antes de avistarem o contorno nítido das docas, já uma dezena de barcos vinha ao encontro deles apitando com legítima histeria. O tubarão vinha meio rebocado, longo e estreito como o caminho que haviam percorrido. Embora já devesse escurecer, era dia de lua nova e lua nova deita muita rama.
Haddock era como o cego que sonhava que via. Sonhava com a maior alegria. Agora que estava rico não lhe faltariam parentes. Catrapinchava como um gorila. Cardoso Pires, depois de remexer na sacola do Zoólogo, tirara de lá uma garrafa de uísque inteirinha que ele já empinava na boca para refazer a bravura.
«Este barco anda ou não anda?», perguntou a Haddock numa pausa para reganhar fôlego.
«Então... vai carregado!, que mais quer?»
O Zoólogo interveio irónico:
«Mister Pirrèss, você sabe bem que um barco destes não foi construído para realizar milagres.«
Via, com pouco entusiasmo, o nível da botelha a descer:
«A bebida», acrescentou, «já afogou mais gente que o mar. Mas um dia não são dias. Na hora da vitória não doem as dores que sofremos. A verdade é que por estes lados só já havia teorias sobre o processo de apanhar um tubarão. Você acabou com todas as teorias.»
«Não achas, ó Sacatrapo, que esta pesca parece uma coisa impossível?»
«Impossível? Talvez. Mas nós estivemos na Índia: lá aprendemos a vender caro o que temos ou a trocar com vantagem.»
«Teremos ainda algo em nós para vender caro ou trocar com vantagem? Verdade, verdadinha, eu senti-me como o homem do leme de Fernando Pessoa diante do Adamastor. Pela primeira vez o poema avantajou-se-me como um mandamento, não uma fraude...»
«D. João II queria muito mais alto que o Infante: este contentava-se com somar monopólios: sabão, tinturarias, óleo de coco ... »
«Deixa, conterrâneo! O que hoje aconteceu não foi um milagre. Ou talvez tenha sido. Porque a nossa vida está cheia de milagres.» E empinou outra vez a garrafa.(...)
XV. Coisa extraordinária: José Cardoso Pires estava triste.
«Algum enguiço?», perguntou Sacatrapo.
«Ouve, conterrâneo!, a minha, ou melhor, a nossa situação não está menos esquerda. Para onde me voltava em Lisboa ou fora de Lisboa só via sapos. Eu, tu, não seríamos menos sapos. Agora diz-me como é que sapos apanham tubarões numa terra longe onde ninguém os vê há séculos? Fora de Lisboa ou Peso de Castelo Branco puxam pelos músculos e vem tudo a pulso. Por que é que só na Aldeia da Roupa Branca nos dá a quebreira e o músculo definha?»
«Mas o Zoólogo é burro. O teu delfim não é nenhum animal. Ele não percebeu nada do livro.»
«Aí é que está. Ele vive num mundo onde não se sabe o que é um símbolo ou uma metáfora. E é de símbolos e metáforas que vivemos na Aldeia da Roupa Branca.»
in Cardoso Pires por Cardoso Pires, entrev. de Artur Portela, 1ª edição, Publicações D. Quixote, 1991, 124 p., pp. 105-112
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