Nas palavras do próprio... Alexandra Alpha

"- A questão da identidade ser  a questão central de Alexandra Alpha. Como, aliás, já era n'O Delfim?

- Decerto, mas n'O Delfim, que foi escrito mais ou menos entre 1963 e 1967, o que está em causa é a agonia dum Portugal tradicionalista, incapaz de se moldar aos valores contemporâneos. Um Portugal híbrido. De camponeses-operários como eu lhe chamo no romance, e o romance não ser  outra coisa se não o fim das mitologias do poder rural. Em Alexandra Alpha o Portugal em causa é outro e de crise abertamente citadina. Ou seja, a crise que ali se debate é a de uma intelligentsia urbana complexada por um passado carregado de burguesia rural. Crise de identidade cultural, aberta e declaradamente, face à paisagem social. O mundo‚ lá fora, o mundo é a civilização industrial, o 25 de Abril vem aí, eles não sabem, mas vem, e, porque não sabem, inventam-se a si próprios. Se não inventamos o País, não cabemos mais nele, diz uma personagem do livro, suponho que a própria Alexandra Alpha. De tudo quanto se escreveu sobre o romance, daquilo que eu li, pelo menos, só Clara Ferreira Alves levantou referências inteligentes. O resto foi tudo atento, sim senhor, mas cheio de precauções, e eu até compreendo que Alexandra Alpha tenha deixado alguma incomodidade em muita gente, então não compreendo!

- Porquê?

- Porque é, ou pretende ser, uma dissertação conflituosa sobre a identificação a vários níveis, inclusivamente ao nível da linguagem - certo vozear cosmopolita que por lá se ouve faz prova disso... E, claro, todos esses relacionamentos estão demasiado próximos da experiência que vivemos nos dias de hoje para que um certo número de leitores não se sinta incomodado. A consciência da desidentificação é quase sempre desagradável, para não dizer dolorosa. É corno sentir-se emigrante na sua própria terra: a pessoa tem dois rostos que se contrariam um ao outro. Sim, é isso... Alexandra Alpha está povoada de figuras a dois rostos, como se pode verificar.

-A Alexandra e a Maria...

-Decerto, a Alexandra e a Maria são dois rostos de uma mesma personagem e isso é tão evidente que o autor da capa da edição brasileira se limitou a desenhar uma figura de mulher, à maneira picassiana, com dois rostos. São duas personagens cúmplices e de sinal contrário, a Alexandra e a Maria. Tratam-se por «manas», o que sugere uma intimidade emblemática, julgo eu. Além disso, tiveram nos anos de formação (na Faculdade) períodos de menstruação simultâneos, (o que, aqui para nós, não será lá muito admissível), e finalmente morrem em oposição mas de mão dada. Depois há o Opus Night que vive a duas memórias, uma para o dia, outra para a noite, há o faquir, há a Sophia Bonifrates que cultiva um desdobramento de personalidade, alimentando uma gravidez fantasma... olhe, com as devidas distâncias, os delírios de maternidade de Sophia fazem-me lembrar a cerimónia da afigliata em que os homossexuais encantados representam a cena do parto. Ah sim, exactamente. Só que a gravidez fantasma de Sophia está  longe de ser uma encenação ou um ritual e, menos ainda, uma metáfora. É um estado psicopático concreto, devidamente diagnosticado desde o tempo de Hipócrates e designado hoje, na medicina corrente, por pseudose ou gravidez alucinatória. É possível que eu esteja a ser demasiado extenso, estou? Ou impreciso admito que sim. A Sophia ‚ uma personagem que me foi sempre difícil. Todo o trajecto dela está ligado à obsessão de maternidade, desde a primeira metamorfose de freira ou esposa de Deus até à de mãe fantasma que projecta marionetas para crianças que nunca conheceu nem vir  a conhecer. Como indivíduo, situa-se entre a patologia científica e o mito sagrado, porque o fenómeno científico da gravidez alucinatória é uma espécie de estado de graça ou de imaculada gravidez que tem qualquer coisa de arremedo ou de sarcasmo bíblico, na minha maneira de ver. Tirando isso e indo ao mais importante, penso que, no caso da Sophia, a busca da maternidade corresponde a uma busca de afirmação ou de identidade, porque, para lá de todos os reflexos de ordem sentimental que a envolvem, a maternidade representa um desejo de identificação com o corpo e com o produto que o seu corpo entrega à mulher para dispor dele. Quando se diz que a gravidez transmite um sentimento de segurança à mulher, está-se a falar em identificação, em identidade. Afinal, o que é a identificação senão uma busca de segurança?"

 in Cardoso Pires por Cardoso Pires, entrev. de Artur Portela, 1ª edição, Publicações D. Quixote, 1991, 124 p., pp. 51 - 54

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