Para uma análise mais profunda... A Cavalo no Diabo
"Se há uma estratégia pré-definida e usada com suma competência pelo prosador José Cardoso Pires, é a da surpresa. Três das crónicas-contos de A Cavalo no Diabo começam desse jeito: «Aí pelos anos 40 Al Capone tinha o quartel-general numa leitaria da Avenida Almirante Reis quase à esquina da rua José Falcão» («Conversas com Al Capone»); «às 6.30 da manhã Deus estava de Costas para mim e eu escrevia» («Por quem os sinos dobram»); «Num dia sem horas nem data, ia eu em Coimbra com o poeta Afonso Duarte que Deus tem» («São Benedito de Assis»). Ou então o arranque faz-se com versos, como em «Os sapatinhos de ouro», paródia da paródia para falar de Imelda Marcos, mulher do último ditador das Filipinas.
Surpresa para os leitores mais batidos na sua rota, há personagens que saltam de livros antigos para o actual. Duas delas vinham no mesmo conto das Histórias de Amor: o negro Simas Anjo e o aldrúbias Heliodoro, ou Lidoro, agora dito o Ganso. Anjo dança e conquista rodopiantes damas nas sociedades de recreio. Lidoro «aposta à Santola», ou seja, deita a mão a uma peça de marisco granjola contra a habilidade de martelar pregos numa tábua com a testa, o que acresce à surpresa. São novas habilidades suas.
Estas personagens tendem a ser desenhadas com traço instantâneo, em um, máximo dois parágrafos, enquanto os ambientes são montados diante de nós à mesma velocidade."
sem nome, "A Cavalo no Diabo", in Jornal de Letras, Lisboa, 21 de Dezembro, 1994, pp. 15-17
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