De Profundis, Valsa Lenta
1.ª edição - Publicações Dom Quixote, Lisboa, Maio de 1997, com prefácio de Professor João Lobo Antunes
«(...) Para escrever De Profundis, Valsa Lenta, Cardoso Pires teve de se munir da protecção da surdez contra o canto da sereia da literatura. A difícil missão deste livro é narrar um acontecimento bio-"gráfico" até ao limite, bastante estrito, em que ele é narrável sem se entrar no território da ficção.
Todos os acontecimentos têm uma data e um local precisos. Este deu-se em "Janeiro de 1995, quinta-feira"(assim começa o relato), quando o José Cardoso Pires, ele mesmo, à mesa do pequeno-almoço, se começa a sentir mal e faz uma pergunta estranha à mulher -"Como é que tu te chamas?"- que lhe responde devolvendo-lhe a pergunta: "Eu Edite. E tu?". Resposta: "Parece que é Cardoso Pires".
Começava assim, no uso de indicadores linguísticos da alteridade, o "é" em vez de "sou", um processo que o levaria rapidamente à perda total da memória e, consequentemente, da identidade e de tudo aquilo que ela implica: A relação afectiva e intelectual com o mundo e com os outros, em suma, a razão e a paixão que comandam cada gesto e pensamento do ser falante.
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A sua narrativa, se não quer entrar no espaço da ficção (e mesmo os testemunhos alheios, exteriores, são usados com muita escassez e prudência) tem de se deter no limiar em que se começa a dar a perda da memória, da identidade própria e da linguagem (e, com esta, é toda a possibilidade de identificação do mundo que se perde) e só pode prosseguir a partir do limiar em que tudo foi perdido.
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O que emerge desta passagem é a ideia de que a experiência é sempre uma ficção, algo que alguém fabrica para si próprio: uma experiência não é qualquer coisa que muito simplesmente se produz, é preciso que seja narrada "a posteriori".
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Na verdade, só agora, no momento da narração, é que Cardoso Pires consegue aproximar-se do ponto em que todo o olhar reflexivo se tinha tornado impossível. Assim, aquilo a que ele agora chama "morte branca" nunca chegou a ser vivida como morte, qualquer que fosse a sua coloração. O que ressalta deste relato é a serenidade, a tranquilidade com que viveu a situação. A perda da memória, implicando uma perda das relações afectivas e uma libertação relativamente às determinações temporais, traz consigo a leveza, a inovação, a ausência de densidade e de angústia.»
GUERREIRO, António, "A morte branca", in Jornal Expresso, Lisboa, 24 de Maio, 1997
Depoimentos:
Alexandre Castro Caldas
João Lobo Antunes
António Lobo Antunes
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