Nas palavras do próprio... Adolescência
"- Esse, o olhar do menino. Vem, depois, o olhar mais longo do adolescente?
- De certa maneira, um olhar que desmente as imagens anteriores, como não podia deixar de ser. No meu caso, pelo menos. No meu caso, por exemplo, foi uma revelação descobrir que a minha rua estava limitada a norte e a sul por dois indivíduos da Polícia Política, o que, pelos vistos, não era novidade senão para mim. Um deles, além de agente, era proprietário da barbearia do largo e no extremo oposto, ao cimo rua, morava o célebre inspector São José Lopes que ia à missa aos domingos disfarçado de chefe de família. E a igreja, idem. A Igreja de São Jorge de Arroios foi outra revelação. Com o seu barroco modesto e o lindo cruzeiro que ainda lá está, começou-me a aparecer como um viveiro complacente de torcionários preocupados com as virtudes teologais. Lembro-me dum Guimarães que punha uma opa por cima da farda de legionário para ir para a porta da igreja pedir esmola para a Conferência de São Vicente de Paula. Tinha um filho que ajudava à missa e que eu vi anos depois nas brigadas da PIDE que assaltaram a Faculdade de Ciências. Mas havia mais exemplares destes. Inclusivamente, um alto responsável da paróquia, médico e professor de Moral no Liceu de Camões, que depois do 25 de Abril veio a ser identificado como informador da PIDE com larga folha de serviços!
- Procissões e pides...
- De Arroios e da minha experiência religiosa, a única recordação nobre que me ficou foi a de um homem de bondade, o padre Costa Pio, que a polícia torturou barbara--mente por ter dado refúgio ao democrata Manuel Serra depois do rapto do paquete «Santa Maria». Naturalmente que o cardeal Cerejeira guardou a mais resignada passividade perante este crime, como era costume, e é por isso que eu recordo com repulsa o passado colaboracionista da nossa Igreja. Como diz William Carlos Williams, «sem ser católico ouço os sinos» mas, desgraçadamente, só muito de raro em raro é que consigo descobrir neles qualquer pureza. Hoje, a igreja de Arroios não sei como está por dentro, que polícias ou que cumplicidades é que ela tem... Mas por fora está uma arrogância. Foi reconstruída com um tal exagero e com um tal desprezo pela paisagem local que parece um bunker imperialista. Aquilo já nem é um templo, é um anátema de cimento armado que desmantelou, sem dó nem piedade, o pobre jardim de Arroios da minha infância. Ecologia cristã, será isso, a ecologia cristã? Não sei. O pior é que eu livrei-me dessa monstruosidade mas aqui, ao lado desta casa onde moro hoje, tenho outra, não sei se já reparou. Esta á em gótico do Estado Novo, que coisa! Somos vizinhos há mais de vinte anos. Foi nesta Igreja de São João de Brito que fez paróquia o corajoso padre Botelho depois do exílio que lhe impuseram os bispos de Salazar. E, tal como em Arroios, olhe que nesta área também não faltaram torcionários a ilustrar a paisagem. Ali mesmo, à esquina da Avenida da Igreja, está a cervejaria dum pide que se fartou de espalhar terror pelas redondezas. Na minha infância havia o pide da barbearia a embalar as vítimas com a música da tesoura, venho para aqui e encontro outro a encandeá-las com a espuma da cerveja. Interessante, não é? Afinal a rua da minha infância repetia-se na rua para onde eu vim morar muito depois. Ou, antes, o que se repetia era a cidade, era o país...
- Íamos na sua adolescência, no que a marcou...
- Não sei, mas a vida a várias experiências talvez tenha sido o traço que marcou a minha adolescência. Uma recusa à integração conceituada, a reacção instintiva era essa. Quando entrei pela primeira vez no Liceu de Camões, a minha sensação imediata foi a de que estava a ser fechado num reduto concentracionário ou coisa semelhante. Os alunos andavam fardados da Mocidade Portuguesa e cumprimentavam os professores em silêncio e de braço estendido, à maneira fascista, como se tivessem sido privados de voz... Eu não tinha a menor ideia política daquele ritual, é evidente, mas pressentia uma certa humilhação, um certo enquadramento desumanizado naquilo tudo. Foi uma imagem que permaneceu em mim até muito tarde. O liceu repelia-me (ou eu repelia o liceu, vinha a dar no mesmo), e a minha tendência era compensar-me com uma vida exterior. Na Faculdade, então, isso acentuou-se ainda mais, as minhas relações com os colegas eram poucas. Em vez da Associação e dos cafés de estudantes, frequentava os bilhares da Almirante Reis, patrulhava os bailes dos Bombeiros, da Rádio Graça ou das Manas Pretas e não me dava nada mal. Nessa mesma altura, ao mesmo tempo que cumpria a minha recruta literária à mesa do Café Herminius, fazia serões de jogo numa ou outra casa clandestina como a dum carvoeiro que havia na Rua José Estêvão, mais que feito com a polícia, e onde a frequência às vezes era tanta que chegávamos a bater as cartas em cima da cama do próprio dono da casa. Foi nessa marginália de estudante que conheci os Pequenos Vampiros que descrevi nas Histórias de Amor. Uma parte dos meus primeiros contos vem daí, dos vampiros do Largo do Chile, os «imperadores do Chile», como então eram chamados, que prostituíam as garotas do bairro. Outra parte da experiência tem a ver com os carteiristas mal-engonhados que andavam à babugem dos bilhares da Cervejaria Portugália e com as expedições sexuais aos bailes de que eu falei ainda agora - Manas Pretas, Incrível AImadense, Alunos do Apolo, etc. Tudo somado, era uma população medíocre que me servia de contraponto à Universidade e à literatura."
Cardoso Pires por Cardoso Pires, entrev. de Artur Portela, 1ª edição, Publicações D. Quixote, 1991, 124 p., pp. 21 - 22 / 25 - 26
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